A Vingança Está na Moda

Tilly (Kate Winslet) é uma misteriosa e elegante mulher que retorna a uma inóspita e pequena cidade na zona rural da Austrália dos anos 50. Agora uma costureira renomada, graças a seu estilo e alta costura, ela passa a mudar a vida das pessoas da região e começa a pôr em prática seu desejo de vingança por aqueles que a expulsaram do lugar quando ainda era uma criança. Com esta adaptação do best-seller de Rosalie Ham, a diretora Jocelyn Moorhouse deve ter realizado o sonho de muitos diretores australianos, que é conseguir reunir alguns grandes nomes que já atuaram no país, como os consagrados Kate Winslet, Hugo Weaving e Judy Davis, além das estrelas australianas emergentes Sarah Snook e Liam Hemsworth.

‘A Vingança Está na Moda’ é um drama com um toque de humor negro que na sua atmosfera e essência lembra bastante o filme ‘Matadores de Velhinhas’ (2004), dos Irmãos Coen. Como o título sugere, o tema do filme é uma trama de vingança, mas a princípio o espectador não sabe o porquê de tudo aquilo estar acontecendo e isso adiciona à trama um tom de mistério no ar. Essa é uma decisão corajosa e ao mesmo tempo bastante arriscada, pois ajudaria ao espectador criar mais empatia pela causa da protagonista se ele soubesse o que fizeram de mal a ela, para que a vingança contra seus algozes fosse muito mais saborosa. Se a direção de Jocelyn soubesse como contornar isso, não haveria problema, mas infelizmente não é o que ocorre.

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O filme não toma uma posição clara sobre a história que quer contar, há uma relação esquisita entre Tilly e sua mãe, que vive em uma espécie de chiqueiro (tem até um gambá de estimação e não toma banho), além do fato de sua mãe não se lembrar dela. O contraste da figura completamente elegante de Tilly naquele lugar inóspito e caipira é bem interessante, assim como a personalidade curiosa e hilária do Sargento Farrat (Weaving), mas, enquanto o primeiro ponto é abordado de forma muito superficial praticamente com objetivo imagético, o segundo serve apenas de alívio cômico, mas não passa disso, até que em algum momento isso acaba cansando e naturalmente perdendo a graça (a piada é tão prolongada que vai até um momento teoricamente mais sério, que é um funeral mais para o final do filme).

Outro problema é que quando as peças estão devidamente apresentadas e é necessário desenvolver a história, em momento algum, aqueles personagens e aquele lugar parecem “reais”. Os personagens são extremamente caricatos, temos o político que não liga para a população, o príncipe encantado que chega da cidade grande arrasando corações, o galã másculo, bruto e selvagem, mas que é incrivelmente carinhoso, e quem diria, culto, que conhece Shakespeare e tudo mais. Para contrastar ainda mais seu “perfeccionismo”, ele tem um irmão deficiente mental, que também só serve de alívio cômico e, convenhamos, fazer piadas sobre esse assunto é de um nível de humor muito baixo. Ah, e temos a mocinha feia e tímida que vai passar por uma fabulosa transformação (não reclamem porque ela previsibilidade do filme isso nem chega a ser considerado um “spoiler”…).

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Então sem revelar mais detalhes sobre a trama, há uma confusão de gêneros, que o filme tenta abraçar, porque há um pouco de tudo. Temos a comédia de uma personagem chique deslocada em um local rústico, o interesse romântico, o drama familiar mãe e filha, o mistério do passado que vai se revelando aos poucos por meio de flashbacks (e com um desfecho bizarro, no mau sentido) … Esqueci de alguma coisa? Ah, além da trama da vingança, que parece ter sido esquecida também pela diretora do filme, dando voltas e mais voltas, sendo que o tema principal é deixado de lado durante boa parte das desnecessárias duas horas de duração da trama.

Se há alguma coisa que ‘A Vingança Está na Moda’ tem de bom, são as atuações. Kate Winslet, além de glamorosa e com tudo em cima, se me permitem, está completamente à vontade. Seu carisma e entrega no papel são talvez as únicas armas que o filme tem para manter o interesse do espectador até o final. Como já mencionei, o sargento de Hugo Weaving é muito engraçado no começo, mas vai perdendo força ao decorrer do filme, embora a dedicação do ator seja algo digno de nota, e remete vagamente a um dos seus primeiros papéis de destaque na carreira, no filme ‘Priscila, a Rainha do Deserto (1994)’. A indicada ao Oscar Judy Davis é outra que impressiona, apesar da fraca escrita reservada para sua personagem.

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Quanto à estética do filme, ela funciona relativamente bem. A recriação da época é bem eficiente, a direção de arte é bem pitoresca, os figurinos são maravilhosos (nada mais justo que fosse assim, diga-se de passagem), dá para notar a mão do experiente diretor de arte Roger Ford (de ‘Babe, o Porquinho Atrapalhado’), mas também não há nada que salte aos olhos. A trilha sonora do indicado ao Oscar David Hirschfelder não é das mais inspiradas, mas ambienta bem o local e ajuda na imersão da plateia.

Portanto, ‘A Vingança Está na Moda’ vai encontrar seu público nas fãs de Kate Winslet ou até da obra original – quem leu afirma que a adaptação é bem fiel – mas o filme peca pela pretensão de abordar vários temas, demonstrando que não tinha substância suficiente para contar a história de vingança que promete desde a primeira frase da protagonista Tilly. Apesar dos esforços do elenco, o roteiro é superficial demais, há excessos de reviravoltas que poderiam ter sido cortados em prol do dinamismo do filme, e se a tentativa foi “emular” Shakespeare ou algo do tipo, passou longe, mas muito longe. Ao mesclar sua comédia de humor negro com um melodrama previsível e chato, o filme prova ser um desperdício de talento e, convém dizer, de alguns vestidos fabulosos, nas palavras do sargento Farrat.