O poder da arte em causar sentimentos diversos é algo inquestionável. Seja uma canção, um desenho, uma dança, não importa. É inevitável que um sentimento é aflorado ao absorver o poder de alguma obra, tanto aquelas consideradas boas, quanto as classificadas como ruins. Arte é arte e possui uma poderosa capacidade de gerar sentimentos, muitas vezes, inexplicáveis. Adam é um caso curioso quanto a essa reflexão sobre a arte. Muito porque a obra que marca a estreia de Maryam Touzani como diretora de um longa e que se tornou o representante do Marrocos para uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2020, causa diferentes sentimentos em uma delicada narrativa. 

Não há segredos no roteiro, também escrito por Maryam. Toda a trajetória da personagem é simples, e por muitas vezes, clichê. No entanto, suas camadas dão um teor muito mais poderoso para uma simples história. Todo o plano de fundo explorado em Adam torna o mais simples clichê em uma absorção reflexiva. Cafarnaum (2018), um outro representante ao Oscar (deste ano, no caso) apresenta algo parecido. Por sua vez, a narrativa primária de Maryam não traz tanto peso quanto o longa de Nadine Labaki. Pelo menos, aparentemente. 

Como a arte tem um poder muito pessoal, chega a ser quase impossível definir a emoção de uma obra. Afinal, são experiências pessoais que determinam ideologias, relações, reflexões e admirações. Adam é um causador disso por atingir um ponto diferente do citado Cafarnaum. Enquanto o drama de Nadine tem um poder próprio, Adam oferece o seu próprio, porém muito direto, por trabalhar brilhantemente a sua segunda – mas também primeira – camada: a maternidade. 

Longas com a temática tendem a possuir uma força própria no macro, com suas narrativas mundiais e “fáceis” de absorção, como O Quarto de Jack (2015) e A Escolha de Sofia (1982), por exemplo. No entanto, Adam tem um  toque muito mais direto por não só trabalhar a potência do discurso maternal, mas fazer isso com um estudo social do país em segundo plano. Obras como Cafarnaum, Quem Quer Ser um Milionário? (2008) ou Lion: Uma Jornada Para Casa (2016) possuem uma intensa narrativa em seu primeiro plano, mas ainda trazendo detalhes reflexivos em suas entrelinhas, com análises sociais, econômicas e políticas sobre um lugar ou uma situação específica. Adam não possui uma narrativa em primeiro plano sustentável. Como citado, o comum e o clichê dominam o roteiro de Maryam. Por sua vez, ainda que o segundo plano seja mais chamativo, ele consegue fazer uma saudável mescla com o primeiro e se tornar interessante a sua maneira. 

Muito se deve pela qualidade técnica de Maryam em manter sua narrativa em uma constância. Por mais repetitiva que aparenta ser, é evidente sua força de controle de personagem e história, mantendo o espectador sempre atento com as três – ou quatro, pensando melhor – protagonistas. Nessa perspectiva, há uma qualidade técnica admirável diante as atuações de Lubna Azabal, Nisrin Erradi e Douae Belkhaouda. Mesmo com um título masculino, o filme possui sua força natural graças às três, e por tratar de uma reflexão maternal diante a difícil realidade do país, a força das mulheres marroquinas se torna a verdadeira protagonista.   

Ainda que em tela esse poderio esteja representado de maneira clara, a direção de Maryam trabalha tudo com a maior sutileza possível para manter a graciosidade da história dominar o espectador. É possível que não haja uma conexão direta com sua proposta. No entanto, é explícita a força da jornada contada pela cineasta, principalmente pelo vigor estar presente em um personagem não existente. 

Quanto sua escolha para tentativa de indicação, Adam demonstra pouco potencial para conseguir uma vaga. Diante obras como o próprio Parasita (2019) e A Vida Invisível (2019), o longa de Maryam não tem a superioridade, ainda que seja uma obra graciosa dentro de sua proposta.