O diretor John Madden (“Shakespeare in Love”) realiza com “Armas na Mesa” seu primeiro longa mais político e menos romantizado, uma mudança notável e corajosa em seu estilo. Porém a direção permanece segura, com uma decupagem hollywoodiana clássica de drama e suspense, e poucas cenas marcantes como a sequência inicial em que Elizabeth Sloane (Jessica Chastain) fala diretamente para a câmera explicando seu trabalho como lobista. Essa é também a estreia do roteirista Jonathan Perera, que toca em um dos pontos mais delicados da política americana: o controle de armas. Tema que ainda gera discussões e polêmicas e seja talvez o motivo da estreia com pouca bilheteria do longa.

Elizabeth Sloane faz parte dessa nova geração de personagens femininas sem qualquer escrúpulo. Ao que parece, os roteiristas ainda têm dificuldade em criar uma mulher que seja forte, mas que não seja uma máquina. Sloane pensa somente em vencer, ela é viciada em remédios, não possui amigos, não parece ter arrependimentos e muito menos uma vida amorosa. No início do filme temos muita dificuldade em simpatizar com esta figura, que não faz qualquer questão de ser minimamente agradável. Porém, quando Sloane se recusa a trabalhar para os senadores pró-armas e chega mesmo a rir da cara deles, é que percebemos que esta mulher pode não ser tão absurdamente cruel como imaginamos. E é graças a interpretação de Chastain que esta protagonista deixa de ser fria como está no roteiro e passa a ter mesmo um ar de melancolia e de tristeza, que ronda suas ações e fica estampado em sua cara após alguma medida drástica que precisa tomar. Afinal, Sloane trai a confiança daqueles que estão próximos a ela o tempo todo, sua própria equipe (um time de jovens) não tem a menor ideia de qual será seu próximo passo e os espectadores também se sentem sempre um pé atrás.

Créditos: Divulgação

O aspecto perverso da política norte-americana se sobressai, por isso o filme dialoga muito com a situação atual dos Estados Unidos. A forma como as decisões são tomadas e como os políticos orquestram as relações de acordo com seus próprios interesses, ilustram a nova era Trump, na qual aparentemente as pessoas no poder não são realmente políticos, mas supostamente empresários, homens de visão.

Sloane enfrenta a batalha mais difícil de sua carreira pois está no sentido contrário dos homens mais ricos do país, e apesar de utilizar meios questionáveis acabamos torcendo pela lobista. Parece que o espectador tem que fazer a escolha moral em um filme completamente sem moral.

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Apesar de contar com um orçamento pequeno, “Armas na Mesa” possui um elenco excepcional, capaz de sustentar toda essa trama cheia de reviravoltas de maneira mais verossímil. E não exagero ao dizer que Jessica Chastain leva o filme nas costas.

Ao mostrar um pouco sobre como o mundo dos lobistas funciona podemos entender mais a respeito dessa profissão tão pouco explorada no cinema, mas não espere grandes explicações para todas as questões colocadas na tela. “Armas na Mesa” funciona bem como um filme mais para se entreter do que para incutir uma reflexão.