SINOPSE PEQUENA

Segundo um termo cunhado pelo ensaísta e pensador do cinema, André Bazin, ‘Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)’ com estreia nacional para o dia 22, é um meta-filme. Cinema que fala sobre si mesmo e sobre teatro, mas com um tema recorrente nas produções norte-americanas, a redenção. Riggan Thomson (Michael Keaton) é um ator/astro dos anos 90 em declínio, após sua carreira ser ofuscada pelo próprio personagem que o colocou nos holofotes, Birdman, um super-herói de blockbuster. O que difere esta opulenta e belíssima aula de como dirigir de Iñarritu das produções que concorrem ao Oscar 2015, está justamente na execução de uma história milhares de vezes recontada em Hollywood.

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O filme é quase um plano-sequência único com cortes temporais discretos, uma trilha pontuada por percussões quando vive-se a realidade de conflitos de Riggan, que tem uma filha viciada (Emma Stone, excelente), um ator egocêntrico e controlador direcionando sua peça (Edward Norton, concorrendo a Melhor Ator Coadjuvante) e um casamento falido. Sem contar com sua vontade de reconhecimento nos palcos com uma peça que somente ele acredita que dará certo. Quando os atores e ele mesmo sobem ao palco, os temas se tornam eruditos, como se a harmonia da vida estivesse na ilusão, uma excelente mostra de mixagem e edição de som (também concorrendo). A mente de Riggan está em conflito, como se seu super-ego fosse o próprio Birdman manipulando suas decisões e colocando em cheque o que realmente vale a pena na arte, a epifania. Mas ela seria dada pela complexidade artística ou pelo escapismo? Esta é a crítica que o roteiro faz ao cinema em tempos de super-heróis movimentando as bilheterias incansavelmente com Thor, Capitão-América, e outros, assim como o próprio Keaton teve seu cachê colocado nas alturas com ‘Batman’ (1989), e ‘Batman – O Retorno’ (1992) de Tim Burton, mas após isto um hiato de 20 anos em papéis mau-aproveitados.

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A sanidade de seu personagem é questionada por sua visão do mundo, como cenas de vôo, telecinese, que na verdade são a forma que sua mente tem de expressar seu talento escondido. O diretor coloca a câmera o tempo todo sobre os ombros e olhares dos personagens, como se cinema virasse teatro em sua visceralidade. O filme concorre a nove indicações assim como o lúdico ‘O Grande Hotel Budapeste’ de Wes Anderson. Emma Stone foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante assim como Keaton que tem seu maior momento na carreira. Com uma festa polemizada este ano por temas políticos a exaustão e a falta de atores negros concorrendo, ‘Birdman’ parece a saída do labirinto em que Hollywood se colocou de anos para cá.

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A história também aborda a difícil relação do artista com o crítico, pois ele é o filtro entre o sucesso e o ostracismo. Com sua experiência em produções caóticas e difíceis como ’21 Gramas’ (2003), ‘Babel’ (2006) e ‘Biutiful’ (2010) que têm personagens intensos e enredos ídem, o diretor mexicano que faz parte da trindade cinematográfica de sua terra com Del Toro e Cuarón, mostra sua maestria tirando o melhor de seu elenco. O vanguardismo temporal de ‘Boyhood’ (Richard Linklater) não tem a mesma opulência deste que é disparado o melhor filme. Assim como seus amigos, Alejandro sempre foi um experimentador, mais narrativo do que estético sim, mas esta é a virtude de ‘Birdman’, fazer o cinema americano olhar para o próprio umbigo, e não gostar do que vê. Quando vemos o personagem de Riggan, vemos a angústia do artista em tempos líquidos e superficiais, onde o artesanato do ator é engolido pela indústria. Iñárritu também concorre a Melhor Direção, assim como o Filme e o Roteiro( que aliás ganhou o Globo de Ouro). Vamos aguardar para o dia 22 a redenção do próprio cinema, se a vida for justa, pelo menos para a arte.

Trailer do filme: