SINOPSE

Nas florestas do Pacífico Norte, um pai de seis crianças com educação física e rigorosas é forçado a deixar seu paraíso ao ar-livre e ir viver na cidade. Será que lá ele será capaz de manter os valores que ensinou às crianças?

FICHA TÉCNICA

Direção:

Matt Ross

Roteiro:

Matt Ross

Gênero:

Drama, Comédia

Produção:

Elenco:

Viggo Mortensen, Frank Langella, Kathryn Hahn

Nacionalidade:

EUA

Ano de Produção:

2016

Data de Lançamento:

22/12/2016

Distribuição:

UNIVERSAL PICTURES

CLASSIFICAÇÃO

Direção:

Roteiro:

Fotografia:

Trilha-Sonora:

Efeitos Visuais:

Efeitos Especiais:

Direção de Arte:

Elenco:

Montagem:

Figurino:

Maquiagem:

fantasticoposter
OS PRÓS E CONTRAS DE ‘CAPITÃO FANTÁSTICO’ EM 9 TÓPICOS SIMPLES E OBJETIVOS.

‘Ele os preparou para tudo, exceto para o mundo externo’.

RESUMO: Ben (Viggo Mortensen) vive na floresta, longe da civilização com seus seis filhos. Lá ele os educa e ensina a se fortalecerem física e emocionalmente contra os perigos da sociedade moderna. Mas tudo muda quando a mãe das crianças – que estava hospitalizada – morre e vai ser enterrada pelo seu pai, que não quer de forma alguma o viúvo na cerimônia. Ciente de que o ultimo pedido da esposa foi ser cremada, mesmo assim Ben parte com os filhos para a cidade para realizar esse desejo. O filme é escrito e dirigido por Matt Ross, um ex-ator (‘Psicopata Americano’, ‘O Aviador’) que dirige seu segundo longa-metragem na carreira.

ESSÊNCIA: ‘Capitão Fantástico’ foi inspirado pela experiência própria do diretor ao encarar a paternidade. Apesar de ser uma produção modesta, é um projeto bastante ambicioso pela forma como aborda os temas que se propõe a discutir. Eu vejo em sua essência um ensaio sobre o quanto do mundo em que vivemos nossos filhos precisam conhecer e o quanto é importante mantermos afastados deles. É possível viver em harmonia com a natureza na sociedade contemporânea? No caminho para responder essas questões, em sua maior parte o filme critica a sociedade consumista e por meio do choque cultural e de ideologias também questiona a eficiência do nosso sistema educacional, se estamos criando futuros seres pensantes ou pessoas condicionadas a viver eternamente sob o regime de instituições autoritárias, que controlam certos meios de produção.

ESQUERDISTA: O filme explora filosofias políticas que vão contra o governo como conhecemos hoje. O fato de, ao invés de comemorarem o Natal como a maioria das pessoas, fazerem uma festa em homenagem a Noam Chomsky – que também ficou conhecido por ser contra a ideia de controle centralizado da economia por parte do estado – fortalece esse argumento. Há um outo momento bem emblemático que é quando vemos Ben usando uma camiseta ‘Jackson 88’. Para quem não pegou a referência, Jesse Jackson foi um ativista negro que se candidatou duas vezes à presidência dos EUA, em 1984 e 1988. Ele era o candidato do partido democrata e ficou muito conhecido por criar a ‘Rainbow Coalition’, ou seja, uma política focada no auxílio a todas as minorias (afroamericanos, latinos, árabes, homossexuais, pobres e etc.). Jackson fora derrotado por Ronald Reagan e George W. Bush (pai), respectivamente.

Mais uma vez o figurino é usado para reforçar a ideologia do personagem Neste exemplo, o figurino é usado para reforçar a ideologia do personagem

ROTEIRO: O ‘coração’ do filme (ou seja, o evento que move as ações dentro da narrativa) é a morte de Leslie (Trin Miller), (a) esposa de Ben, (b) mãe das crianças e (c) filha de Jack (Frank Langella). É através desses três núcleos (a, b e c) que o espectador irá conhecer os pontos de vistas dos personagens para entendê-los melhor. Tanto Ben e Leslie quanto Jack, Harper e Dave (os parentes ‘civilizados’ de Leslie) representam o extremo de suas convicções (liberais ou conservadores). No centro dessa disputa de ideologias estão as crianças, alguns rebeldes, outros selvagens, mas ainda em uma jornada de autodescoberta. O filme decide explorar essa contradição por meio do drama particular vivido pelo filho mais velho Bo (George MacKay), que ao se aproximar da idade adulta passa a confrontar dilemas como escolher uma Universidade, se relacionar com garotas, coisas que não estão nos livros em que estudou.

SAÍDA DA ZONA DE CONFORTO: Ben e Leslie criaram seus filhos longe da civilização que consideravam ‘fascista’ e fútil, os educando em casa, ensinando a se defenderem fisicamente e a sobreviverem em um ambiente hostil. Isso os fortalece também como seres humanos, demonstrando muita união. Exceto pela saudade da mãe – que estava hospitalizada – eles viviam num verdadeiro paraíso particular. E ao desafiarem seu avô (que culpa Ben pela morte da filha) e irem para o enterro mesmo contra a vontade dele, as crianças (e Ben) vão aprender que o mundo é perfeito quando vivemos na nossa zona de conforto, mas quando nos arriscamos e confrontamos ideias contrárias as nossas convicções é que realmente estamos vivendo em sociedade e dispostos a crescer como pessoas.

ROAD MOVIE: Apesar de todo esse discurso que poderia ter tornado o filme uma verdadeira ‘chatice’ ideológica, acredito que o grande ponto forte de ‘Capitão Fantástico’ é que no segundo ato em diante o filme se torna uma espécie de road movie, onde o choque de ideologias entre as culturas rende momentos divertidos e engraçados (com destaque para a garotinha Zaja, interpretada por Shree Cooks) que tornam o tema e o filme mais leves. Os próprios conflitos também são encarados de forma bem-humorada, como na cena do restaurante onde perguntado por um dos filhos ‘o que é Coca-Cola?’ Ben responde ‘água envenenada’, ou o trágico pedido de namoro de Bo a uma garota que acabou de conhecer.

QUAL DOS DOIS LADOS É O CORRETO? Mas também há momentos muito reflexivos e encarados com seriedade dentro desse choque ideológico. Há uma cena muito interessante e bem feita onde um encontro no jantar vai acabar desencadeando em uma grande discussão sobre o que se aprende nas escolas hoje em dia é conhecimento ou é mais uma ‘preparação’ para o mundo real, embora Kathryn Han e Steve Zahn não tenham um terço da capacidade dramática e presença de tela que Viggo Mortensen tem. Isso fica ainda mais claro quando Viggo contracena com Frank Langella em outra discussão sobre como criar um filho. A imponência desses dois atores é tão forte e presente que conseguimos entender o ponto de vista dos dois personagens. Não há aqui herói ou vilão, apenas dois lados extremos que precisam entender um ao outro e encontrar um equilíbrio ideal para conviverem juntos.

O figurino de Mortensen e Langella reforça o antagonismo de ideologias que defendem O figurino de Mortensen e Langella reforça o antagonismo de ideologias que defendem

DISCURSO PROBLEMÁTICO E VIGGO MORTENSEN: Uma das frases mais marcantes do filme é quando um dos personagens diz ‘Nossas ações nos definem, não nossas palavras’. Essa é uma frase linda, mas colocando na prática, contradiz muito do que faz o protagonista. Embora Ben seja retratado em vários momentos como alguém valente e destemido, que fala abertamente sobre tudo, suas ações acarretam muitos problemas na vida de seus filhos, física e socialmente. Mas, apesar de um personagem contraditório (incentiva o roubo e uso de armas, embora talvez seja essa a intenção da direção), Viggo mais uma vez entrega uma atuação incrível, um verdadeiro camaleão. Sua expressividade e a jornada fílmica que seu personagem atravessa certamente são resultado da entrega e plausibilidade que ele passa ao papel. Possível segunda indicação ao Oscar para o ator.

DIREÇÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS: Embora particularmente o filme não tenha me atingido a um nível emocional, não há como negar que a direção de Matt Ross é sólida e eficiente. Há uma bela cena onde Bo parte pela janela do carro, sendo separado cada vez mais do mundo externo onde deseja estar, que é muito bonita. Algumas referências mais obscuras funcionam como metáforas, enquanto outras não. Por exemplo, em uma cena na fogueira, Rellian (Nicholas Hamilton, o filho rebelde) lê um livro chamado ‘Os Irmãos Karamazov’, de Dostoievski. A aclamada obra fala sobre filhos que se revoltaram contra seu pai. Já outra personagem fala sobre o livro ‘Lolita’, de como o espectador/leitor consegue simpatizar com o protagonista controverso ao conhecer a história sob seu ponto de vista, mas essa metáfora não funcionou comigo (em momento algum do filme eu ‘comprei’ a ideologia de Ben, acho que faltou convicção ao personagem e seus filhos sofreram com isso). De qualquer forma, entre erros e acertos ‘Capitão Fantástico’ é uma dramédia que funciona muito pelos méritos da atuação de Viggo Mortensen e consegue conquistar o espectador pelo carisma e rebeldia dos seus personagens.

As vestimentas extravagantes servem ao filme como forma de demonstrar que Ben e as crianças não são pessoas 'comuns' e estão bem longe da sua zona de conforto As vestimentas extravagantes servem ao filme como forma de demonstrar que Ben e as crianças não são pessoas ‘comuns’ e estão bem longe da sua zona de conforto

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