Anos atrás, pouco se falava do mercado chinês em Hollywood, mas com o tempo, a China mostrou que tem um potencial maior que o ocidente e, muitas vezes, é o responsável por salvar uma franquia.

O MPAA (Motion Picture Association of America) divulgou, no ano de 2013, que a bilheteria dos Estados Unidos caiu de US$ 10,9 bilhões para US$ 10,4 bilhões em um ano, além de sofrer uma forte queda de bilheteria em filmes 3D. Tudo isso é reflexo de um mal resultado dos blockbusters no país, e é nessa hora que a China entra. A bilheteria na China cresceu 34% e foi o primeiro país, depois dos Estados Unidos, a ultrapassar US$ 4 bilhões em bilheterias. Países da Ásia foram os responsáveis para que a bilheteria global subisse 4%, enquanto ocorria uma queda nos Estados Unidos e Canadá.

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Filmes como ‘Transformers: A Era da Extinção’ e o recente ‘Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos’, fracasso nos Estados Unidos, tiveram seus pescoços salvos pelo mercado chinês. O quarto filme da franquia ‘Transformers’, em 2014, bateu recorde na China, com US$ 301 milhões em bilheteria, sendo que arrecadou US$ 245 milhões nos Estados Unidos.

‘Warcraft’ teve uma péssima estreia nos Estados Unidos, com US$ 24,3 milhões arrecadados no primeiro final de semana, além de uma grande quantidade de críticas negativas à adaptação. Faltando pouco para o filme ser considerado um fracasso tremendo, a China apareceu para virar o jogo. Com uma estreia de US$ 145 milhões em bilheteria, ‘Warcraft’ se tornou a maior arrecadação de estreia do país, batendo ‘Velozes e Furiosos 7’. Esse sucesso no mercado asiático pode ter sido a salvação da franquia, garantindo uma sequência, já que, sua bilheteria no total passou dos US$ 370 milhões. Curiosamente, foi com ‘Warcraft’ que a América do Norte, pela primeira vez, representou “apenas” 10% da bilheteria mundial.

‘O Destino de Júpiter’ é outro filme que entra pra lista. Sendo um fracasso nos Estados Unidos, o filme chegou a arrecadar US$ 23,2 milhões no primeiro final de semana na China, ajudando o longa a arrecadar seus US$ 152 milhões, onde US$ 107 milhões vem de bilheterias fora dos Estados Unidos. Com um orçamento de US$ 145 milhões, o mercado chinês foi o responsável por salvar o longa.

Chi 3 Exibição de itens do filme ocorrida em dezembro de 2015, na China.

Mas, o que fez a China receber toda essa atenção? No caso de ‘Warcraft’ é fácil entender. O estúdio da Legendary, responsável pela produção do longa, foi comprado por um conglomerado chinês, sendo assim, as produções poderão ser consideradas nacionais para o país, causando uma potencial distribuição do longa. Além da distribuição, o jogo World Of Warcraft tem a China como um dos países com mais usuários. Com o fenômeno do filme, o ator Jackie Chan comentou sobre o desempenho do filme no país, durante o Festival de Xangai, ocorrido em junho deste ano: “Se pudermos fazer um filme que ganhe US$ 1 bilhão, então todos os grandes produtores de cinema terão que aprender chinês, em vez de a gente ter que aprender inglês”.

É notório que Hollywood vem focando no mercado asiático nos últimos anos, tendo em vista que em muitos grandes sucessos temos uma boa presença de atores chineses. ‘Independence Day: O Ressurgimento’ é a mais recente prova de que Hollywood está enxergando a China como a galinha dos ovos de ouros. Além da presença significativa de atores chineses, o foco dos ataques foram em cidades chinesas. Outro ponto que evidencia este cuidado com o mercado chinês está em pequenos detalhes do longa, como a pronuncia do idioma e até o uso de marcas chinesas, principalmente para ilustrar o alimento dos personagens.

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‘Star Wars: Rogue One’, com estreia prevista para dezembro, também traz o seu time de personagens chineses, mas não é para menos, já que ‘O Despertar da Força’ teve um resultado extremamente positivo no país.

Previsões já indicam que se a China continuar com um crescimento significativo em sua arrecadação, poderá chegar aos US$ 11,9 bilhões no final de 2017, ultrapassando os Estados Unidos e se tornando o maior mercado cinematográfico do mundo. Segundo os analistas, o crescimento do mercado chinês se deve a uma maior quantidade de cinemas multiplex, com mais de uma sala de exibição, e também por conta do surgimento de uma classe média com mais recurso financeiro.

Mas nem tudo são flores. Apesar da alta bilheteria e de todo o lucro que a China gera para os Estados Unidos, o país ainda é atrasado. Muitas obras, produzidas em outros países, passam por uma rígida avaliação do governo chinês antes de chegar às telas de cinema e muitos filmes sequer são exibidos, pois são barrados pela censura. Em 2015, com o lançamento de ‘Star Wars: O Despertar da Força’, o personagem de John Boyega, o Finn, teve que ser retirado, ou “diminuído” de alguns cartazes de distribuição do filme pelo preconceito com os negros. A China também procurou boicotar o lançamento do trailer devido a presença do ator negro nas cenas.

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Hollywood, aos poucos, vem se mostrando extremamente dependente do mercado asiático e seus filmes são o reflexo de toda essa preocupação. As produções americanas tendem – cada vez mais – a perder um perfil americano e com o tempo, quem sabe, o Tio Sam não será representado com olhos puxados?