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Certas histórias precisam ser contatas. Não importa o formato, o tempo ou como, só precisam ser contadas, e Marco Archer Cardoso Moreira sabia que sua história era uma dessas que deveria ser conhecida. Com um sentimento de deixar algum legado e “viver para a eternidade” ao invés de viver para a vida, Marco teve a ideia de entrar em contato com o diretor Marcos Prado e falar de um documentário sobre seus últimos anos.

O gênero documentário tem um perfil muito jornalístico, que envolve pesquisas, entrevistas, montagens, e dessa vez o próprio personagem teve essa visão de que ali existia uma história importante a ser contada e que todos deveriam conhecê-la. Realmente precisava. A história de “Curumim” não serve apenas para mostrar o sofrimento e todas as dificuldades que um criminoso brasileiro passou em outro país, mas faz o espectador questionar sobre inúmeros assuntos atuais, como pena de morte, tráfico de drogas e a realidade do mundo. Alguns podem até criticar por ser um filme que defende bandido, mas ‘Curumim’ faz tudo, menos defender um lado.

Puxando seu lado jornalístico, o documentário de Prado termina fazendo o público se questionar e tirar suas próprias conclusões sobre o que acabou de ver. O jornalista tem uma função parecida, apresentar a notícia e deixar o leitor em dúvida e fazê-lo questionar e escolher um dos dois lados apresentados. No ano de 2015, ano em que Curumim seria executado, enxergamos o lado da situação, sem enxergar a pessoa em si, que ali estava. Questões políticas e ideológicas foram trazidas para discussões, mas pouco se falou do homem.

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Crédito: Divulgação

Além do outro lado, a fantástica direção de Prado apresenta o singular e o pessoal, como é retratado em uma das cenas onde Curumim está em sua cela e diz, apontando para um homem dormindo: “Esse aqui é um terrorista, encontra-se dormindo. É extremamente perigoso”. Não enxergamos bandidos, assassinos, corruptos como pessoas, mas sim como rótulos. As filmagens de Curumim e as entrevistas de Prado conseguem equilibrar entre sua história e a realidade ali envolvida. O espectador enxerga um lado desconhecido daquilo que ele considera mau. Com um senso de humor incrível, Curumim não tirava o sorriso do rosto, nem nos 11 anos de espera na fila da morte.

O questionamento proposto em relação a pena de morte ou tráfico é acompanhado de um pensamento político. “Se você acha que o Brasil é corrupto, perto da Indonésia a gente é criança”, frase dita durante uma das entrevistas. Não enxergamos aquilo que não nos mostram e nem aquilo que não queremos ver. ‘Curumim’ tenta abrir nossos olhos em um documentário pessoal e extremamente bem apresentado.

Marcos Prado, que tem uma fantástica parceria com José Padilha, com quem já trabalhou em ‘Tropa de Elite’ (2007) e ‘Tropa de Elite 2’ (2010) como produtor, mostrou um desenvolvimento como diretor em ‘Paraísos Artificiais’ (2012), com uma direção delicada. A parceria com Padilha vem desde 2004 com o documentário ‘Estamira’, no qual Prado dirigiu e Padilha produziu. O trabalho em dupla foi só crescendo e a qualidade foi junto. Em ‘Curumim’, ela continua presente, e muito se deve a bela direção de Prado, mas a presença e a visão de Padilha servem de adicional ao belo documentário.

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Crédito: Divulgação

É possível observar também o trabalho fotográfico de Prado, trabalho esse que ganhou destaque no World Press Photo em 1992. Apesar de ter muito mais trabalhos no cinema como produtor e diretor, é fácil observação a qualidade no trabalho de Prado.

Infelizmente, o gênero não tem tanta força com o público brasileiro, apesar de termos ótimas produções e histórias do gênero. Torço para que a produção Globo Filmes e a produção de Padilha, nomes fortes no meio cinematográfico brasileiro, possam trazer um público significativo. Os aplausos que ‘Curumim’ recebeu na mostra Panorama, do Festival de Berlim, são muito mais do que merecidos. Toda a sua montagem bem estruturada não cansa e deixa o espectador interessado de conhecer mais. O longa apenas peca no som, em determinados áudios de má qualidade que se tornam complicados de entender e não há legenda. Apesar desse defeito, a trilha, quando exigida, não decepciona, com um tom delicado e suave, combinando com a história.

Não estou aqui para defender nenhum lado, estou aqui para fazê-lo assistir e se questionar quanto todas as propostas apresentadas. A grandiosidade do documentário faz jus a grandiosidade da história. ‘Curumim’ vai além da vida de Marco Archer.

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Crédito: Divulgação