SINOPSE

Se em “Três Enterros / The Three Burials of Melquiades Estrada” (2005), Tommy Lee Jones, utilizava o Texas para discutir a forma como os Estados Unidos tratam os estrangeiros mexicanos. Em “Dívida de Honra / The Homesman”, de 2014, ele usa o faroeste para polemizar o tratamento histórico dado à importância feminina para a construção da América durante o período. Mesmo que o filme não cative facilmente por falta de cenas de ação, com certeza, em uma época como a nossa, em que o feminismo é cada vez mais forte, este é um filme de um ator/diretor preocupado com as demandas do seu tempo, tanto que apesar de o longa-metragem não ter sido selecionado para concorrer ao Oscar, ele figurou na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2015.

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A trama é baseada no romance homônimo de Glendon Swarthout, publicado em 1988, que se passa num pequeno vilarejo da cidade de Nebraska, no Texas. Três mulheres da comunidade apresentam quadros psicológicos graves e violentos, fazendo com que parem de falar, ameacem as pessoas com maldições ou até mesmo assassinem seus filhos recém-nascidos. Quando decidem enviar as mulheres para tratamento no estado vizinho, Iowa, diante da hesitação dos homens da cidade, Marie Bee Cuddy (Hilary Swank) se oferece para levá-las na viagem de mais de uma semana, mesmo sendo uma mulher sozinha. Durante os preparativos para a viagem ela se depara com um homem de idade avançada e maltrapilho, Georges Briggs (Tomy Lee Jones), que foi deixado sobre um cavalo para ser enforcado, salvando a sua vida com a condição de que ele a acompanhasse na jornada.

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Discutir a formação da nação norte americana, através da figura feminina não é a abordagem mais comum em filmes sobre o velho oeste, ainda que elas tenham ganhado um pouco mais de espaço a partir das produções “revisionistas”. Ainda assim, na maioria deles, as mulheres são apenas personagens coadjuvantes, que pouco influenciam nas ações dos homens. Entretanto, desde que os filmes sejam tecnicamente deslumbrantes, o público do gênero está mais interessado em ver histórias de vingança, com homens atirando uns nos outros – portando suas Colt e Winchester, do pensar sobre a violência doméstica e machista da época. E é por isso que as produções mais focadas nas discussões do que na aventura, são menos assistidas e comentadas.

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Dívida de Honra retrata essa discussão satisfatoriamente, com suas personagens levadas ao extremo da depressão, mesmo a mais forte delas. E como não se deprimir em uma época que além da violência masculina generalizada, elas tinham que conviver com a escassez de alimentos, o calor escaldante do deserto, o frio congelante do inverno e a mortalidade dos filhos por causa das condições precárias. Se na sociedade moderna as doenças mentais são abundantes, como seria no séc. XIX? E é esse o grande mérito do filme, retratar as dificuldades e os dramas sofridos por elas é rediscutir a visão glamorosa e injusta que este tipo de cinema perpetuou por muito tempo.

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Este é o segundo longa-metragem de Lee Jones para o cinema, que dirigiu outros dois para a TV, “Os Bons e Velhos Companheiros / The Good Old Boys” (1995) e “The Sunset Limited” (2011). Este segundo, um ótimo telefilme produzido para a HBO, baseado em um livro de Cormac McCarthy, que tem outros livros adaptados, como “Onde Os Fracos Não tem Vez” (2007) e “A Estrada” (2009). Mesmo com pouca experiência, como diretor, ele demonstra aptidão e competência adquiridos em sua longa carreira de mais de setenta filmes como ator.

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Além da fotografia empoeirada que confere verossimilhança à obra, o elenco foi muito bem escalado para representar cada personagem. Swank combina muito com a mulher forte e à frente de seu tempo, que não representa o padrão, tanto de beleza como o de personalidade, para a sua época e por isso tem dificuldades para encontrar um parceiro e uma colocação que a satisfaça naquela sociedade ultrapassada, principalmente por conflitar com seu grau de instrução. Tommy é o homem que já não encontra espaço em um mundo em transição, onde os seus hábitos já não são mais aceitos, mas que guarda valores, que apesar de conflituosos, se tornam necessários em qualquer tempo. E o “casting” conta ainda com uma pequena participação de Maryl Streep, além de a filha dela ser uma das atrizes coadjuvantes que aparecem na maior parte do filme.

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Apesar de The Homesman encaixar-se no termo “revisionista”, não é um longa-metragem comum dentro do seu próprio gênero, por isso pode causar estranheza em quem procure o modelo clássico de “western” e soar monótono em alguns momentos. Ainda que apresente alguns clichês característicos de faroestes, não vem acompanhado da ação e a violência explícita que a maioria das produções contemporâneas trazem e que geralmente agradam os espectadores, sendo na maior parte do tempo sustentado por diálogos e ações relativamente realistas. No entanto, para quem assisti-lo levando em consideração seu contexto histórico, pode ser positivamente surpreendido pelo seu conteúdo reflexivo, crítico e por vezes trágico, obtendo uma experiência cinematográfica bastante satisfatória.

Trailer do filme: