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‘Eu, Olga Hepnarová’ é baseado em uma história real e Olga foi a última mulher a ser executada na Tchecoslováquia. Para retratar a vida desta mulher nada convencional que viveu entre 1951 e 1975, os diretores estreantes Tomás Weinreb e Petr Kazda utilizam uma linguagem e câmera na qual o espectador torna-se cumplice e testemunha da vida de Olga. Após uma tentativa de suicídio, ela é levada para um hospital psiquiátrico no qual passa por diversos momentos desagradáveis e é até agredida pelas outras meninas da instituição. Ao deixar o hospital, Olga resolve se isolar em uma casa distante da família, onde vive só e tem algumas relações pouco duradouras com outras mulheres. Seu temperamento inconstante e provocador, pode seduzir à primeira vista, porém torna-se algo sufocante com a convivência.

A escolha da atriz Michalina Olszanska para o papel de Olga funciona perfeitamente e somos enfeitiçados por esta personagem tão bem construída. Há nuances nas escolhas e ações de Olga que requerem da atriz sutileza para que vejamos em suas expressões os pensamentos atormentados da personagem. Além da boa atuação, o longa conta com ótima direção de arte, que nos ambienta ao clima e época retratados. Olga está constantemente em salas fechadas, fumando compulsivamente e escrevendo suas ideias e memórias. O filme todo em branco e preto remete a esta inexpressividade à primeira vista de uma mulher pequena e frágil. Porém, conforme a história se desenvolve, percebemos que a falta de cor e os grandes contrastes remetem diretamente ao desejo mais profundo da protagonista: a morte. Todos os contrastes visuais presentes no filme são os mesmos contrastes que Olga apresenta, mesmo quando aparenta se divertir, ela claramente não pertence a lugar nenhum.

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Crédito: Divulgação

Há uma sobriedade que compõe o filme todo, impressionando o espectador e criando uma atmosfera de tensão. A câmera, sempre em planos estáticos, não pretende acompanhar os movimentos de Olga, que várias vezes abandona a cena e nos deixa na expectativa do que estaria fazendo. A composição dos quadros revela a personagem em meio ao caos que ela mesma cria: há uma cena em que Olga está deitada na cama e cospe em si mesma, na mesa ao lado há cigarros e cinzas por todos os lados. Tudo isso pretende apresentar a personagem antes do dia fatídico em que ela atropela e mata várias pessoas. Antes de alcançar o caos, Olga registra seus argumentos que defende fortemente, as pessoas que tanto a machucaram e a isolaram precisam de uma vingança, assim como o mundo todo precisa de uma vingança por ignorar as pessoas que não são consideradas “normais”.

É impossível assistir a ‘Eu, Olga Hepnarová’ e sair ileso do cinema, suas questões (expressas de forma mais agressiva) são as nossas questões e o sentimento de não pertencer em meio às pessoas é um tema que não se limita a 105minutos de filme.

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Crédito: Divulgação