SINOPSE PEQUENA

Nascido em 22 novembro de 1938, John Eleuthere du Pont foi um dos descendentes de E. I. du Pont, que em 1802 construiu fábricas de pólvora em Delaware, que se transformaram na gigante empresa química da família posteriormente. Du Pont sempre viveu um estilo de vida luxuoso e excêntrico. Ele construiu o Museu Delaware de História Natural para abrigar suas coleções de mais 66 mil aves. E na sua propriedade de 800 hectares, construiu um centro de treinamento de aproximadamente 600 mil dólares para atletas, nadadores e lutadores, que competiram sob seu patrocínio como “Team Foxcatcher”. Du Pont era um grande amante do esporte Olímpico.
Um ex-atleta olímpico que o conhecia desde a infância, disse uma vez que a personalidade de du Pont crescia cada vez mais de forma errática, após uma série de incidentes que ocorreram em sequência: um acidente automobilístico que praticamente restringiu sua vida como esportista, um casamento que falhou e durou pouco e a morte de sua mãe, Jean Austin du Pont, tradicionalista e que não aprovava o gosto do filho pelo wrestling.

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Bennett Miller, vencedor de Melhor Diretor em Cannes, constrói Foxcatcher no sentido mais “literal” do drama, definido por Aristóteles: a tragédia. Talvez a principal idiossincrasia do diretor – especialista em biografias, como “Capote” (2005) e “O Homem Que Mudou o Jogo” (2011) – seja seu ritmo lento e de incerteza quanto ao futuro das suas tramas. Isto rendeu ao filme o prêmio de Distinção Especial do Independent Spirit Awards, por sua “singularidade de visão, honestidade de direção e roteiro, atuações soberbas e de realização em todos os níveis do cinema”. A homenagem será feita na cerimônia da premiação, no dia 21 de fevereiro.
Questionado na época sobre a escolha de Steve Carrell (Indicado ao Oscar) para o papel principal, Miller respondeu: “Eu penso que todo comediante tem um lado sombrio”. Se analisarmos os fatos, Miller foi o divisor de águas na carreira de Philip Seymour Hoffman, que antes de Capote – pelo qual o ator ganhou seu único Oscar em quatro indicações – era tido como um coadjuvante, muitas vezes usado como um alívio cômico para a narrativa. Outra prova disto foi a surpreendente primeira indicação ao Oscar de Jonah Hill, em O Homem que Mudou o Jogo.

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Esta é a segunda indicação ao Oscar de Miller como diretor, inclusive uma das raras indicações em que o diretor é lembrado e o filme fica de fora da premiação. Um grande diretor de elenco como ele não obtém resultados por acaso. Channing Tatum e Mark Ruffalo (Indicado ao Oscar) chegaram a chorar após os exaustivos treinos e Tatum, inclusive – na cena do espelho – estava tão imerso no papel de Mark Schultz que quebrou o espelho de verdade e cortou a testa, em um gesto tão intenso, mas que não estava no roteiro. Há quem diga que Miller chegou para Carrell em uma das cenas mais sombrias e o mandou escrever em um papel a coisa que mais odeia sobre si mesmo e guardar no bolso, para se lembrar de ter aquilo consigo durante toda a cena. Posteriormente, Miller disse que aquela foi sua cena favorita do filme.
Miller subverte um pouco o gênero por não utilizar elementos geralmente essenciais para filmes desta “natureza”: aqui não há superação, nem heroísmo, tampouco uma grande descoberta interior do protagonista. Estamos diante de um dilema moral, uma reversão da sua fortuna por meio de um erro cometido por ele mesmo, a ambição fora de controle. Se o personagem não aprende a lição, nós, espectadores, somos capazes de nos comover com a situação, mesmo sem derramar uma lágrima.

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É claro que, ao optar por uma adaptação mais “fiel” dos fatos, Miller transformou Foxcatcher em uma obra insensível e de certo modo, sem vida. Mas não apática e desinteressante, como algumas pessoas rotularam o filme. O personagem de du Pont não era um psicopata/sociopata comum. Ele queria ser admirado de verdade. Ele sofria de um complexo de necessidade de realização de algo grandioso. Seu império fora herdado. Seu museu de aves raras era uma realização muito pessoal, que não surtia nas pessoas a admiração que ele esperava. Sua mãe não apoiava seu esforço olímpico. E nisso Carrell conseguiu transpor, de forma muito mais dramática, um dilema que outro personagem seu – Michael Scott, da série The Office – sofria: a necessidade de ser amado. A verdade é que du Pont sofria de uma espécie de crise “cognitivo-comportamental” e não teve um amigo de verdade ou uma pessoa que se preocupasse com seu estado mental para procurar um tratamento adequado.

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E o resultado de tudo isso é “Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo”. Muito bem dirigido e atuado, como já foi dito, com mais um ótimo roteiro de Dan Futterman (2 indicações ao Oscar) e E. Max Frye (primeira indicação), e com excelentes efeitos especiais e de maquiagem (indicada ao Oscar). Ao despertar um sentimento de constrangimento e incômodo no espectador, somado ao desejo e frustação dos personagens, bem como a solidão de du Pont prestes a explodir através da violência, Foxcatcher merece ser visto graças ao esforço fantástico de todo o elenco e equipe para entregar um filme simples, porém plausível e chocante.

Trailer do filme: