Para os fãs brasileiros de ‘House of Cards’, principalmente para quem já assistiu a segunda temporada e especialmente por causa do cenário político do nosso país de 2015 para 2016, a série ganhou um gosto especial e quase premonitório. Mas, teria a série da Netflix alguma correlação com os acontecimentos políticos no Brasil ou de qualquer outro país, já que os EUA nunca tiveram nenhum presidente afastado por impeachment? Sendo que dois escaparam do processo: Andrew Johnson e Bill Clinton, além de Richard Nixon, que renunciou para evitar a deposição. Certo é que o contexto político da série que revolucionou a maneira como nos relacionamos com seriados televisivos, tem muito a dizer sobre a história da política, não só a recente, mas desde o início da democracia ocidental, tanto no Brasil, quanto em outros países pelo mundo e em diferentes épocas.

No ano passado, quando os processos de impeachment da presidenta Dilma começaram a serem discutidos e neste ano, quando ela foi afastada do cargo por seis meses, com grande possibilidade de não retornar, tendo seu cargo assumido pelo vice-presidente Michel Temer é impossível que os fãs de ‘House of Cards’ não tenham tido uma sensação de “déjà vu”. [“spoiler alert” leve] Na segunda temporada da série exibida via “streaming”, também ocorre um processo de afastamento onde o presidente dos Estados Unidos é definitivamente impedido de governar. [fim do “spoiler”] Ainda que sejam contextos bastante diferentes, não é impossível de se estabelecer algumas analogias entre a realidade brasileira e a ficção norte-americana.

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Comparar o personagem Frank Underwood, magistralmente interpretado por Kevin Spacey, com Michel Temer ou mesmo o ex-presidente renunciante à Câmara de Deputados Federal Eduardo Cunha, pode até parecer exagero. Porém, justo ou não, é quase inegável o papel de Cunha para que o processo ocorresse e se Temer não colaborou diretamente para que a presidenta fosse afastada, pelo menos ele não parece ter se esforçado para que ela permanecesse no cargo. Mas, se não temos acesso a tudo o que ocorre nos bastidores da política nacional, assistir a seriados que abordem a política de forma geral, nos ajuda a imaginar e entender parte da politicagem real.

Indo além da temática do impeachment, ‘House of Cards’ nos faz entender, também, outras relações do meio político. Temos os financiamentos de campanha, que são relacionados com favorecimentos de determinadas empresas. Vemos as puxadas de tapete dentro dos próprios partidos entre os supostamente “colegas partidários”. Qualquer um que tenha um mínimo de conhecimento da política partidária, principalmente no Brasil, com seus 35 partidos (e mais alguns já pediram aprovação), sabe que muitas vezes a competição é ainda maior dentro dos próprios partidos, o que explica as trocas e os pedidos cada vez mais frequentes de novas siglas. São retratados ainda os conflitos internacionais, principalmente sobre as relações dos Estados Unidos com a Rússia e as tenções históricas entre ambas as nações, assim como as guerras travadas pelos estadunidenses recentemente.

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No que tange aos processos democráticos, ‘House of Cards’, também exemplifica muito bem como funciona historicamente a democracia brasileira e mundial, não só a contemporânea. Quem conhece um pouco da história da democracia desde os primórdios, sabe que ela teve um início pseudodemocrático, onde apenas os cidadãos privilegiados votavam, na Grécia, com algumas evoluções em Roma, depois passando por períodos mais autocráticos e evoluindo após algumas revoluções como a francesa e a americana. Séries de livros como a ‘O Imperador’, de Conn Iggulden, que apesar de serem mais literárias, do que históricas, retratam muito bem essas alternâncias e “rasteiras” do poder desde a época do Império Romano, demonstrando que a corrupção e traições não são características apenas das repúblicas modernas e já aconteciam na época de Caio Júlio César.

Originalmente, ‘House of Cards’ foi adaptada do livro do britânico Michael Dobbs, pelo canal de TV BBC, em uma série de quatro episódios em 1990. Nesta americana de 2013 foi livremente inspirada nos livro e série, pelo diretor David Fincher, em seu primeiro trabalho em um seriado para a TV, no qual dirigiu os primeiros episódios, além de ser seu produtor executivo, projeto que ele já pensava em trabalhar desde 2008, quando conheceu a versão original inglesa. Logo que foi lançada a série, ela alcançou rápida aprovação de público e crítica, incentivando o “binge watching” (ato de assistir dois ou mais episódios de uma série de uma vez só).

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Seu sucesso se deve principalmente à sua qualidade técnica, com uma fotografia que anteriormente só se via no cinema e em algumas poucas séries que se igualavam em qualidade, como ‘Os Sopranos’ (1999 – 2007) e ‘Breaking Bad’ (2008 – 2013). O roteiro de cada episódio, também é extremamente bem escrito, com diálogos complexos e realistas, além das excelentes atuações de Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly e Kate Mara. A produção como um todo passa a sensação para os fãs, de que estão vendo um longo filme de Fincher, o que é uma feliz sensação para o público que cultua o diretor de ‘Seven – Os Sete Pecados Capitais’ (1995) e ‘Clube da Luta’ (1999).

Não bastasse toda sua qualidade cinematográfica e como representação do universo político, ‘House of Cards’ ainda teve a vanguarda de ser produzido pelo Netflix. Foi a primeira série popular a ser totalmente produzida para o canal de streaming e a ter todos os seus episódios disponibilizados de uma só vez, possibilitando que o espectador defina como assistir, mudando a forma como o público se relaciona com séries e como os episódios eram filmados em produções posteriores. Também foi o primeiro seriado produzido originalmente pela empresa online, a receber indicações ao Emmy Award.

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O seriado fez história ao ser indicado a nove prêmios do Emmy, incluindo as categorias melhor série dramática, melhor ator (Kevin Spacey) e melhor atriz (Robin Wright). ‘House of Cards’ rapidamente começou a figurar entre as melhores series e filmes sobre política, ao lado de ‘The West Wing’ (1999) e ‘Scandal’ (2012), e entre longas-metragens como ‘Tudo pelo Poder’ (2011) e ‘Virada no Jogo’ (2012). Ainda que Frank Underwood seja um político do Partido Democrata na série, Kevin Spacey fez um grande trabalho de pesquisa para se preparar para o personagem tendo contato com o congressista Kevin McCarthy, líder do Partido Republicano. Neste ano de 2016, Robin Wright chamou atenção no meio do jornalismo político-cultural, por exigir o mesmo salário que o de Kevin Spacey, alegando com o argumento justo, que sua personagem é tão importante quanto o dele e assim conseguindo que os produtores atendessem seu pedido de equiparação salarial.

Até mesmo o presidente dos Estados Unidos Barack Obama revelou ser fã de ‘House of Cards’, chegando a publicar no Twitter um pedido para que ninguém postasse “spoilers” durante a estreia da segunda temporada em 2014. A série ganhou tanto crédito nos sites que noticiam política e cultura, que frequentemente atores do seriado são questionados sobre política; e funcionários do governo comentam sobre a série. O advogado e professor Michael Posner, que foi secretário-assistente do governo de Obama entre 2009 e 2013, disse em uma entrevista que o seriado não reflete a realidade. Michael Kelly, o ator que interpreta o personagem Doug Stamper, assessor de Frank Underwood, chegou a comentar sobre a política brasileira, ao ser questionado por um jornalista em uma viajem a Buenos Aires.

E como os produtores e diretores de marketing da Netflix, sabem que vida e arte se misturam de formas, no mínimo irônicas, em uma criativa campanha publicitária do início deste ano, foram divulgadas capas digitais de veículos como a Veja e a Carta Capital, alimentando ainda mais a mítica das coincidências entre a série e a política brasileira.

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