‘Não se apunhala o Diabo pelas costas’

Mais de uma década após ter sido dublê de Keanu Reeves no filme “Matrix”, o também coreógrafo e agora diretor Chad Stahelski recebeu do eterno Neo uma proposta: dirigir um filme em que um assassino aposentado, que acabou de perder sua esposa, busca se vingar dos homens que roubaram seu carro e mataram seu cachorrinho, sua última lembrança da amada.

No primeiro “John Wick”, lançado em 2014, Chad compartilhou a direção com David Leitch – um coreógrafo conhecido por ser o dublê oficial de Brad Pitt em filmes como “Clube da Luta”, “Tróia” e “Sr. e Sra. Smith”. O filme foi um marco para o cinema de ação ocidental, mesclando uma tradicional trama de vingança com elementos estéticos, e elaborado uso de cores e coreografias característicos do cinema oriental.

“John Wick” – aqui conhecido como “De Volta ao Jogo” – foi um grande sucesso de público e crítica e, para um filme de ação extremamente violento, alcançou um resultado invejável nas bilheterias. Além de conquistar uma legião de fãs e provar que Keanu Reeves continua sendo um dos principais nomes de ação no cinema atualmente, surgiram boatos de que criariam uma HQ contando a história de Wick e até uma série de TV. É claro que todo esse desempenho incrível credenciaria o filme para uma sequência, que chega ao Brasil nesta quinta-feira (16).

Em “John Wick 2: Um Novo Dia Para Matar”, o protagonista descobre que suas ações no primeiro filme acarretam consequências das quais ele não pode escapar. Desta vez, John Wick (Keanu Reeves) tem uma antiga dívida de sangue cobrada pelo seu credor Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), que o ordena a executar uma pessoa muito importante. Ainda lutando para conseguir se manter aposentado, John precisa honrar seu compromisso e executar a missão mesmo a contragosto.

O diretor Stahelski entende como poucos atualmente a verdadeira essência dos filmes de ação. Ao mesmo tempo em que sabe que a trama de um filme do gênero não precisa ser extremamente complicada – vide “Duro de Matar”, “Busca Implacável”, “Mad Max” ou “Velocidade Máxima”. Ele é competente o suficiente para estabelecer o universo do filme de forma clara, respeitando a cadeia de incidentes que ocorrem. Assim, nesta sequência, se expande a mitologia de John, nos fazendo entender mais sobre seu passado, pouco explorado filme anterior.

No primeiro filme, a barman vira para John e diz “você está diferente, parece vulnerável”. Na verdade, ele estava apenas enferrujado. Nesta sequência, John é como um ninja nas sombras. Ele está verdadeiramente como um “cachorro louco” fazendo o que for preciso para, enfim, poder descansar em paz. Mas quanto mais se envolve neste submundo de violência, mais pareça chegar ao fundo do poço. O que nos leva a perguntar: seria John Wick apenas um maluco assassino viciado em vingança?

No roteiro escrito por Derek Kolstad, as cenas de luta “mano a mano” dão lugar a ainda mais tiros, além de sequências espetaculares com várias batidas de carro e atropelamentos, como a cena do galpão. Mas, não se enganem, pois há muita porradaria também. Alguns personagens do primeiro filme estão de volta, como Ian McShane na pele de Winston e Lance Reddick como Charon. Mais do que serem essenciais para o universo, eles acabam rendendo bons momentos, divertidos e tensos.

A adição de novos personagens também é muito bem encaixada na história, pelas características peculiares de cada um e por ajudarem a estabelecer ainda mais como funciona essa organização secreta de criminosos. O eterno vilão Peter Stomare está no filme basicamente para fazer uma “ponte” com o longa anterior, já que é irmão de Viggo Tarasov (Michael Nyqvist), vilão do primeiro filme, e está com o carro de John em seu galpão.

Mas, quando a história começa a ganhar forma própria, surgem outros antagonistas bem mais interessantes, como Ares (Ruby Rose, de “xXx: Reativado”) e Cassian (Common, rapper vencedor do Oscar de Canção Original por “Selma”). Com uma bela de uma recompensa pela cabeça de John, a perseguição desses dois e mais uma centena de assassinos rendem lutas extremamente intensas que poderiam beirar o absurdo. Como tudo é tão bem construído, acaba se tornando um universo paralelo totalmente plausível.

Falando nisso, o segundo ato conta com John revisitando lugares em Roma, onde vemos a parte estratégica, tática, de armamento e até estilo, rendendo boas piadas. O interessante é que, nesse mundo de selvageria, há uma série de regras que precisam ser respeitadas. Existe até um departamento de contabilidade bem interessante, onde contas são abertas e dívidas, quitadas. Não poderia deixar de mencionar o reencontro com Morpheus – Lawrence Fishburne também está no filme. Para quem é fã de verdade, o desfecho final com Winston chega a ser comovente…

Tecnicamente, o primor estético da direção continua rendendo vários planos incríveis, dentre os quais destaco a sombra da chuva na parede na casa de John, a ópera rock gótica e o tiroteio no meio de uma fonte, que remete aos faroestes de Sergio Leone. A trilha sonora é trabalhada de maneira orgânica e estilosa dentro da história, aumentando no espectador a sensação que as coreografias de tirar o fôlego querem transmitir. Se há uma palavra que define toda a ação de John Wick é “catarse”.

Algumas pessoas podem até se incomodar com o fato de John ser quase um “super-humano”, mas são os heróis extraordinários como ele que fazem os filmes de ação serem tão admirados pelos fãs. E, quem ainda não viu, recomendo fortemente o vídeo de bastidores de Keanu treinando as cenas de luta e de tiro. Com mais de 50 anos, o que este cara está fazendo é impressionante. A veracidade que ele passa para o personagem com suas habilidades extraordinárias é um dos maiores atrativos do filme.

Concluindo, “John Wick 2: Um Novo Dia Para Matar” é uma daquelas sequências que, além de superarem o original, expandem e o tornam melhores ainda. A direção de Chad Stahelski mais uma vez surpreende pela grandiloquência das cenas de ação deste filme, há várias grandes set pieces espetaculares – como a das ruinas, contra uns 25 inimigos. Seu estilo de direção combina violência e selvageria com classe, elegância e a visceralidade necessária, dando destaque para o “belíssimo” suicídio em Roma (viram, como é paradoxal?).

Com simbolismos – em um momento, John aparece com as asas de uma escultura, indicando que é o “anjo da morte” – excelentes coreografias, variedade de armas e inventividade nas mortes – lembram da lenda do lápis do primeiro filme? –, “John Wick 2” oferece duas horas extremamente divertidas e empolgantes, estabelecendo um dos maiores ícones de ação desta década. A trajetória do protagonista é extremamente cativante e compreensível, até porque, como diria o mestre da ação John Woo: “a ação é nada sem a natureza humana. É preciso mostrar o que vai no mais fundo do coração”. Estamos prontos para o capítulo final, Sr. Wick!

E você, já assistiu ou está ansioso para ver? Concorda ou discorda da análise? Deixe seu comentário ou crítica (educadamente) e até a próxima!