Como grande cinéfilo que me considero, estou sempre atento no final do ano àqueles filmes que começam a ser cotados como candidatos a disputa do Oscar. Me lembro quando “Mulheres do Século 20” começou a ser cogitado em algumas categorias importantes, como Filme, Atriz (Annette Benning), Atriz Coadjuvante (Greta Gerwig) e Roteiro. Lembro também de ter lido sobre o filme ainda em janeiro do ano passado, quando o mesmo ficou em 10º na lista do Indiewire dos 100 filmes mais aguardados de 2016 (link aqui: http://bit.ly/2ngqPj6).

Entretanto, muito tempo se passou e nada do filme ser lançado. Acabou que estreou em janeiro nos EUA, concorreu a apenas um Oscar (Melhor Roteiro Original) e mais de 2 meses depois finalmente chega ao Brasil. Como evito ver trailers sempre que possível, pelo texto que eu havia lido, acreditava que fosse tratar de uma história sobre uma mãe solteira que passava por dificuldades para criar seu filho. Mas, o que eu não sabia era que o feminismo seria um tema tão presente e importante para a trama.

Isso foi um ponto muito positivo por vários motivos. Por mais que eu tenha saído da sessão sem saber se havia gostado do filme por não o ter compreendido totalmente, isso me despertou a curiosidade de conhecer mais sobre o assunto antes de escrever sobre ele. E eu acredito que isso seja uma qualidade presente nos grandes filmes. Aquele filme que abre seus olhos para um assunto ou realidade que normalmente você não teria interesse, já cumpriu a sua missão de ser uma história relevante para as pessoas. E, confesso a vocês que mesmo uma rápida pesquisa, enriqueceu muito o resultado do filme para mim.

“Mulheres do Século 20” é escrito e dirigido por Mike Mills, um diretor de apenas três longas na carreira e que ganhou destaque com o tocante “Toda a Forma de Amor”, estrelado por Christopher Plummer – vencedor do Oscar e Globo de Ouro pela atuação. Se passando no final dos anos 70, o filme segue a história de três mulheres de gerações diferentes que se unem a pedido de Dorothea (Annette Benning) para ensinar seu jovem filho Jamie (Lucas Jade Zumann), a crescer como um “homem bom” sem uma figura masculina para o auxiliar.

Julie coloca limites em Jamie: amigos não transam

O feminismo nos EUA começou muito forte nos anos 60 com as sufragistas que iam para as ruas para protestar por direitos iguais (como o voto ou trabalhistas). No entanto, “Mulheres do Século 20” tem uma abordagem muito diferente. Essa “segunda onda” do movimento que o filme retrata, amplia a questão dos direitos a um conjunto de temas mais íntimos, como a liberdade sexual ou o controle de natalidade, por exemplo. O conflito e as incertezas sofridas especialmente por Dorothea – que além de mulher, é mãe – são extremamente acentuados por essa atmosfera de mudanças. O filho está crescendo e os tempos estão mudando.

Mike Mills costuma se dedicar a projetos muito pessoais. Há quem diga que este filme é praticamente semiautobiográfico, pois segundo o próprio diretor alguns personagens são baseados em influências da sua própria infância. Ele também tem um estilo muito peculiar de direção, usa muitos artifícios como músicas, citações de outras obras e, visualmente, algumas montagens que remetem a sonhos ou delírios psicodélicos. Como tem poucos filmes na carreira, ainda é cedo para considerar uma marca registrada sua, mas pelo menos neste filme podemos dizer que há pontos positivos e negativos nessa condução de narrativa.

Cada vez que Jamie se afasta física ou emocionalmente de sua mãe, a câmera se afasta lentamente, a deixando abandonada

A princípio, alguns personagens podem parecer inconsistentes, pois se contradizem em alguns momentos. Mas, isso pode ser uma tentativa de Mills de humaniza-los mais, pois somos assim, frequentemente pessoas mudam de opinião, se arrependem, não sabem o que querem e etc. Vemos isso especialmente em Dorothea – a personagem com mais camadas – quando não tem certeza se foi uma boa ideia pedir o auxílio de Julie e Abbie na criação do seu filho.

No filme, Mills separa o background das personagens por blocos, são três mulheres de três gerações diferentes. Como mencionei, as incertezas das mudanças da época fazem Dorothea (Benning) ser a mais “pessimista” das três. Sua frase “ter o coração quebrado é uma ótima forma de aprender” indica isso. Talvez seja reflexo de sua difícil criação durante a Grande Depressão e sua maior dificuldade em compreender os novos tempos. Ou talvez apenas não consiga lidar com o fato de que seu filho está se afastando, descobrindo o mundo.

Mais um exemplo de abandono, reforçado pelo push out (pull back) da câmera

Abbie (Gerwig) nasceu nos anos 50 e representa a expressão artística. Fascinada por fotografia e encantada pela energia do crescente movimento punk, é provavelmente o espírito mais livre de todo o filme e talvez a personagem mais carismática. Ela ajuda não apenas a Jamie, como é a que melhor interage com todos os outros que vivem na mesma casa. Já Julie (Fanning) nasceu nos 60 e é a melhor amiga de Jamie, e tem que lidar com dilemas sexuais mais do que qualquer outro personagem na trama.

Você pode estar se perguntando, há homens neste filme? Sim. Apoiado por uma frase de Dorothea a Jamie, de que “homens querem consertar tudo, mas as vezes só estar presente já é o bastante”, talvez isso explique a participação de William (Billy Crudup) no filme. Sua presença é importante tanto pelo equilíbrio e empatia que proporciona, além de ajudar na aparente interminável restauração da casa onde vivem.

O filme explora uma variedade de obras, com citações de livros feministas ou de educação sexual como “Sisterhood is Powerful” e “Our Bodies Ourselves”. A falta de sutileza na exibição das obras é proposital, talvez seja Mills dando ao espectador caminhos para que ele se interesse e se aprofunde ainda mais nos temas discutidos pelo filme. O roteiro tem frases impactantes e reflexivas, e embora algumas cenas sejam um tanto desconectas entre si, o texto é muito bom, justificando sua indicação ao Oscar.

Algo que chama a atenção na direção de Mills é a movimentação de câmera praticamente constante durante o filme. Com a repetição de alguns push ins (se aproximar lentamente dos personagens) e push outs (o oposto, se afastar), podemos considerar que essa opção do diretor serve para expandir o envolvimento do público, nos convidando a participar com os personagens. Da mesma forma, reparem que quanto mais Jamie se liberta de Dorothea, a câmera se afasta lentamente, praticamente abandonando a mãe em cena.

A câmera se afasta mais uma vez, como se abandonasse a personagem

Como ponto negativo, narrações, músicas e citações são usadas frequentemente como artifício para contar a história, algo que incomoda um pouco, pois é como se os personagens não conseguissem se revelar e se expressar suficientemente por conta própria, sendo necessário este recurso “externo” para ajudar. Assim, o filme fica mais expositivo e a história perde força. Embora os personagens sejam bem interessantes individualmente, a interação entre eles em conjunto deixa a desejar, além de como eu mencionei, algumas cenas parecem desconectas, quase improvisadas, as tornando muito subjetivas.

Considerando tudo o que foi dito e graças a excelente contribuição do seu ótimo elenco, “Mulheres do Século 20” é um filme relevante e que faz pensar. Principalmente nos dias de hoje, isso é um grande elogio, pois poucos filmes conseguem atingir esse patamar. É um trabalho tecnicamente bem realizado, embora não haja nada que salte aos olhos visualmente, mas sua força está na história que quer contar.

Trazendo reflexões sobre maternidade, amadurecimento, amor e família, o filme aproveita uma época incerta onde os EUA ainda sofriam com os fantasmas do Vietnã e da Watergate, para expandir de maneira genial a discussão por meio do discurso da “Crise de Confiança”, onde o presidente Jimmy Carter chocou os norte-americanos. Carter sabia que a crise não era apenas política e econômica, mas social, cultural e humanitária.

Com honestidade jamais vista vinda publicamente de um presidente, ele declarou que os norte-americanos haviam chegado àquela situação principalmente pela impotência de Nixon em unir a população, mas também do povo, pela inercia e falta de senso de conjunto. “Mulheres do Século 20” nos lembra a importância da igualdade, da união. E o céu vazio que abre o filme nos convida a ser como Dorothea, uma mulher sem medo de voar.

E você, já assistiu ou está ansioso para ver? Concorda ou discorda da análise? Deixe seu comentário ou crítica (educadamente) e até a próxima!