SINOPSE

Nossa mente é como nosso corpo, tem necessidades básicas. Assim como nos alimentamos quando sentimos fome, precisamos de histórias maravilhosas para alimentar nossa imaginação. Isto vem desde os tempos mais primórdios, desde os desenhos nas paredes das cavernas, da literatura, teatro, música, jogos eletrônicos e etc. E desde sempre, histórias épicas serviram para satisfazer nossa imaginação da forma mais prazerosa, apelando para nossas emoções mais instintivas: exaltando as ações heróicas de um personagem ou comunidade, ou seja, indivíduo ou em conjunto, o que amamos nestas histórias é a capacidade de superar obstáculos e infortúnios através de muita coragem e outros atributos pessoais que nós, estando na mesma situação, provavelmente não conseguiríamos demonstrar da mesma forma.Por conta da impotência do homem perante a sua imensidão, o mar causa medo em muita gente e já foi amplamente explorado pelo cinema através de vários grandes filmes, dentre eles “O Grande Motim (1935)”, “20.000 Léguas Submarinas (1954)”, “O Barco: Inferno no Mar (1981)”, “Titanic (1997)” e “Mar em Fúria (2000)”. Muitos também já devem ter ouvido falar na lenda de uma baleia gigante que atacou e naufragou um navio baleeiro por vingança a todas as outras baleias: a cruel Moby Dick. Baseado na história verdadeira do navio Essex, o escritor Herman Melville, escreveu um romance que virou ícone de história épica e um clássico do gênero ao retratar com grandes elementos de ação e aventura esse evento extraordinário. Lançado apenas dois anos após o filme para TV “The Whale” – que conta a mesma história -, esta semana estréia a adaptação cinematográfica da obra, que será chamada de “No Coração do Mar”.

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Dirigido pelo ex-ator bastante promissor, mas que se revelou um diretor melhor ainda (Vencedor de 2 Oscar), Ron Howard, o filme mostra um ainda pouco prestigiado Herman Melville (Ben Whishaw), que vai a procura de Thomas Nickerson (Brendan Gleeson), um dos poucos sobreviventes do ataque furioso da baleia ao navio The Essex, para saber o que de fato aconteceu, até então nunca revelado a ninguém. A direção de Howard é mais uma vez muito segura e o diretor mostra que está se tornando especialista em confrontos diversos do ser humano, como “Frost X Nixon (2008)”, “Hunt X Lauda em Rush (2013)”, o “Homem X Espaço, em Apollo 13 (1995)”, o “Homem X Doença, em Uma Mente Brilhante (2001)” e agora o “Homem X Natureza” em No Coração do Mar.

Por se tratar de um recurso muito eficiente na arte de se contar uma história ocorrida no passado, Howard usa a forma de narrativa inversa, ou seja, inicia o filme em um ponto à frente do essencial para a história para então retornar à elucidação dos fatos. Essa estratégia de mostrar primeiramente o “final do filme”, deixa o espectador mais curioso a respeito de como foi a incrível jornada até lá. Este início lembra – ao seu modo – outra grande aventura literária adaptada recentemente para o cinema, o filme “As Aventuras de Pi (2012)”.

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Chris Hemsworth é Owen Chase, o melhor caçador de baleias local, e lhe fora prometido a honra de ser Capitão do barco no seu próximo trabalho. Então ele deixa sua esposa grávida para passar alguns meses em alto mar e voltar com os barris cheios de óleo a tempo de presenciar o nascimento do seu bebê, mas o que ele não esperava é que seria apenas o Primeiro Imediato de um Capitão muito mais jovem e inexperiente, porém vindo de família rica, George Pollard (Benjamin Walker). Obviamente contrariado, de toda forma Chase precisa aceitar o trabalho, pois necessita prover o sustento de sua família e os tempos não estão fáceis. Começa então uma rivalidade entre os dois que pode colocar em risco o sucesso da missão. “No Coração do Mar” é um filme que fala também da arrogância do ser humano e o que ele é capaz de fazer e até onde pode ir quando está cheio de ambição.

É bastante satisfatório ver que Hemsworth está conseguindo se desvencilhar da imagem de “Thor”, encarando outros tipos de projetos como em Rush, Hacker ou neste filme – inclusive se dedicando a uma transformação física, como na sua foto que foi divulgada recentemente – mas apesar de uma atuação bastante confiante, o ator ainda não conseguiu alcançar certo nível de capacidade dramática para que possa ser elogiado ou premiado. Ainda lhe falta emoção e a foto divulgada às vésperas da estréia acaba por ser na verdade uma baita jogada de marketing, pois o próprio filme não explora este recurso de maneira suficiente. Portanto, não esperem uma interpretação mais visceral como a de Tom Hanks em Náufrago ou Suraj Sharma em As Aventuras de Pi.

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Os coadjuvantes trabalham muito bem, o que não é novidade para um elenco talentoso do calibre de Cillian Murphy, Brendan Gleeson e o jovem Tom Holland. Auxiliados pela excelente arte de Mark Tildesley, que faz o espectador imergir na atmosfera do século XIX, o elenco desempenha bem suas funções, apesar do roteiro não se aprofundar nos personagens e nem se preocupar em desenvolver seus backstories de forma detalhada. Entretanto, quem consegue expressar um pouco mais de emoção mesmo com pouquíssimo tempo na tela é a personagem de Michelle Fairley (a Lady Cathleen Stark), que interpreta Mrs. Nickerson, a esposa de Thomas.

A fotografia do inglês Vencedor do Oscar Anthony Dod Mantle (Quem Quer Ser um Milionário?, 2008) é excelente nas suas decisões de iluminação e planos escolhidos, com destaque para os detalhes de dentro do navio, como objetos e a cenografia. Juntamente com a direção de arte, ambos conseguem encontrar perfeitamente a expressão visual do filme. A trilha sonora do espanhol Roque Baños pontua muito bem nos momentos de ação e aventura, mas fora estes momentos, acaba contribuindo de uma forma negativa para o filme, deixando de auxiliar no envolvimento do espectador por não ajudar a descrever o estado emocional dos personagens. Considerando que as cenas de barco foram filmadas em uma locação pequena e controlada, o trabalho de efeitos especiais e visuais é espetacular, e as cenas em “mar aberto” do filme são absolutamente fantásticas, aparentando estarem realmente em pleno oceano.

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O saldo final de No Coração do Mar não chega a decepcionar, mas lhe falta o “coração” que é prometido no título do filme. Não há erros significativos, as partes técnicas são muito bem executadas, o roteiro de Charles Leavitt é sólido e sem grandes furos, além do bom trabalho do elenco e equipe. Mas quando pensamos em algo épico sentimos que o heroísmo vai muito além da sobrevivência. O significado nos remete a agir, confrontar, fazer sacrifícios e nisso o filme deixa um pouco a desejar, por conta de não haver um clímax ou uma grande batalha. Mesmo quando os sobreviventes chegam ao limite físico e moral no filme, o impacto não é tão forte no espectador, pois não há tanta identificação com aqueles homens. Os grandes filmes têm a ver com paixão. Têm que nos pegar, grudar na nossa cabeça e não sair mais. É uma sensação muito triste quando a catarse não ocorre como deveria.

O conservadorismo dos estúdios tem feito isso aos grandes filmes atualmente. A balança que divide o lado artístico do comercial está pendendo cada vez mais para o lado econômico. Não se arrisca mais, pois nenhum investidor em sã consciência atualmente quer ver seu filme colher vários elogios da crítica, sem receber seu valor investido de volta e ainda lucrar com isso. E quem realmente perde com este “mercado” que é o cinema somos nós, espectadores, idolatrando cada vez mais filmes de qualidade duvidosa, apenas pelo efeito placebo de vermos uma nova “obra-prima” surgir. A dura realidade é que é difícil aceitar que as verdadeiras obras-primas estão cada vez mais no passado, e só o que nos consola é saber que elas poderão sempre ser revisitadas a qualquer momento, graças à magia do cinema.

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