Nós humanos sempre fomos bons contadores de história. Não faço ideia de quando a primeira história foi contada, mas sei que foi há muito tempo. E muitas dessas histórias ecoam através dos anos. Um bom exemplo é a ‘Caverna de Platão’. Ele retratou essa história em A República, no livro VII. Emma Donoghue, escritora do livro e roteirista do filme, descreveu de uma forma perfeita a alegoria da Caverna. O livro se tornou um best-seller e o filme foi indicado em todas as categorias principais do Oscar, exceto a de Melhor Ator, porém venceu apenas na Melhor Atriz.

A alegoria da Caverna fala sobre homens que nasceram e cresceram dentro de uma caverna. Havia uma fogueira atrás deles que refletia apenas os objetos que as pessoas que passavam pela caverna carregavam. Para aqueles homens as imagens eram o mundo e tudo que há nele. Os sons dos passos e das vozes das pessoas se tornavam ecos e aquilo se tornou o mundo dos prisioneiros. Até que um dia um dos prisioneiros escapou e se libertou. O sol o cegou momentaneamente, mas quando ele conseguiu enxergar ele viu um mundo totalmente novo. Sua mente se expandiu aquela realidade e ele voltou correndo para avisar os amigos. Ele entrou novamente na caverna e começou a gritar para os prisioneiros. Entretanto, sua voz se misturou ao eco. Eles não conseguiam entender o que o homem dizia. Sequer reconheceram sua voz.

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No longa temos como personagens principais Jack (Jacob Tremblay) e Joy (Brie Larson). Joy foi sequestrada e trancafiada em um pequeno quarto. Jack nasceu ali e passou a acreditar que o mundo se resumia àquele quarto. A TV era a fogueira que lhe mostrava os objetos. Quando o ‘Velho Nick’ entrava para abusar sexualmente de Joy, Jack ficava trancado em um armário e via apenas a sombra do homem. Cansada dos abusos, Joy elabora um plano de fuga. Assim que Jack olhou para o céu seus olhos embaçaram. Aos poucos ele se adaptou a luz e deu de cara com um mundo totalmente novo. E assim ele estava livre da caverna.

Confesso que gostaria que ‘O Quarto de Jack’ tivesse levado ao menos o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. A sensibilidade do filme o deixou ainda mais belo. É incrível como essa história se mantém tão atual. É claro que o mérito do filme não é apenas esse, mas vamos continuar com o foco.

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Podemos encaixar essa alegoria em várias ocasiões de nossa vida. Sabe quando aquele religioso radical chato te diz que você não deveria fazer tal coisa pois senão irá ao inferno? Não adianta se irritar. Ele está na Caverna e te ridicularizará só por você dizer que não acha errado aquilo que ele considera pecado. Podemos aplicar esse conceito naquela velha frase que o mundo corporativo tanto gosta: ‘Pensar fora da caixa’. Contudo, como diz o brilhante Dr. Clóvis, para que se pense fora da caixa é necessário saber que a caixa existe. Jack não sabia disso. Para ele a caixa era o mundo. E existem vários Jack’s espalhados por aí.

Qualquer pessoa está suscetível a entrar na Caverna e ficar lá por anos. Quanto mais tempo ficar, mais difícil será de sair. Há vários outros filmes que retratam a Caverna de Platão, como ‘O Show de Truman’ e ‘Matrix’. No filme das Irmãs Wachowski o personagem Morpheus diz em uma das cenas que eles libertam pessoas com até certa idade, pois uma pessoa que ficou por muito tempo lá poderia não aceitar a nova realidade.

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Basicamente, todos nós estamos dentro de uma Caverna. Se eu, mero mortal, tivesse uma hora para conversar com Martin Scorsese e este me contasse seu conhecimento sobre cinema eu sairia da caverna onde estou. Todo o conhecimento que ele me daria me levaria a ver um mundo novo. Me faria saber que existe um mundo novo. Não há vergonha em estar na Caverna, a vergonha é não querer sair dela. E uma vez fora, não há como voltar mais. Lenny Abrahamson mostrou isso com perfeição quando, no fim do filme, Jack volta ao quarto e o olha por alguns minutos e diz ‘Este não é o quarto’. O mundo de Jack agora era maior. Ele saiu daquela caverna e não a reconhecia mais.

Einstein já dizia que uma mente quando se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original. Talvez falte isso as pessoas. Há muita gente dentro de suas cavernas e que de lá não querem sair por nada. Se negam a acreditar que há um mundo fora da caverna. Não há como saber quando isso acabará. O que sabemos é que não será tão cedo…