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‘A chibata vai comer’.

Você gosta de filmes de artes marciais? E de dar muita risada? Se pelo menos uma das respostas para estas perguntas foi ‘sim’, tenho boas notícias. Assim como exemplos relativamente modernos de filmes que conseguiram aliar histórias de luta com uma boa dose de humor, como ‘Kung-Fu Futebol Clube’, ’Kung Pow – O Mestre da Kung-Fu-São’ ou o melhor deles, ‘Kung-Fusão’ (este último indicado ao Globo de Ouro de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro), é a vez do Brasil se aventurar neste subgênero com o filme ‘O Shaolin do Sertão’. A direção é de Halder Gomes, do elogiado ‘Cine Holliúdy’ e o roteiro de L.G. Bayão. Aqui em ‘Shaolin’, Halder conta a história de Aluízio Li (Edmilson Filho), um declarado fã de kung fu que vive em Quixadá, no sertão do Ceará. Seguindo o sonho de ser lutador, Aluízio decide ir atrás de um mestre chinês (interpretado pelo cantor Falcão) para aprender os segredos das artes marciais e derrotar Toni Tora Pleura (Fabio Goulart), um famoso lutador de telecatch que está chegando à cidade. Com isso, Aluízio espera conquistar o coração de Anésia Shirley (Bruna Hamu), a garota mais bonita da cidade.

‘Shaolin’ é uma produção relativamente ‘cara’ para os padrões nacionais, custando segundo o próprio diretor do filme 4 milhões de reais. O impacto da verba foi muito bem utilizado, servindo para caprichar na direção de arte e efeitos visuais, deixando sua estética bastante idiossincrática, que aliada às peculiaridades dos personagens e da região, auxiliaram muito Halder Gomes a imprimir mais uma vez sua marca de ‘cinema sertão’ como mais nenhum outro grande diretor faz no cinema nacional atualmente. De semelhante forma a seu filme antecessor, podemos considerar ‘Shaolin’ uma carta de amor de Halder ao cinema, mais especificamente aos filmes de artes marciais de baixo orçamento das décadas de 70 e 80. Contando com o humor característico e exagerado do povo nordestino, bem como seu lado persistente e trabalhador, o filme também relembra a época onde lutadores famosos do vale-tudo iam de cidade a cidade do interior desafiando lutadores locais. Eram eventos que realmente paravam as cidades.

O roteiro é bem prático e apresenta com clareza tudo o que o espectador irá precisar saber até o fim do filme. Aluízio é bastante sonhador, mas acima de tudo um trabalhador que procura uma vida melhor e também conquistar o amor de sua vida. Essa aura humana que o personagem tem o torna muito simpático e consequentemente, muito mais fácil de o espectador se identificar com ele. Mas o grande acerto de ‘Shaolin do Sertão’ é o humor do filme, calcado em grande parte nas gírias da região e mesclado com alguns momentos de comédia pastelão engraçadíssimos. A grande parcela do sucesso do seu humor se dá por conta do elenco muito à vontade, que além de contar com o protagonista Edmilson Filho, tem também a presença de Dedé Santana (isso mesmo, dos Trapalhões), o cantor Falcão (hilário no papel do Mestre Chinês), o experiente Marcos Veras e uma grata surpresa, o garotinho Piolho (Igor Jansen), responsável pelos comentários mais engraçados do filme. Mesmo as subtramas, que são a história de romance entre Aluízio e Anésia e o conflito familiar que Aluízio sofre, pois sua mãe não gosta da admiração do filho pelo kung-fu, embora não sejam aprofundadas, entregam resoluções aceitáveis dentro da proposta descontraída do filme. Ah, e desta vez o nível do ‘cearês’ não é tão avançado (como era em ‘Cine Holliúdy’), portanto, não são necessárias legendas para cair nas gargalhadas.

As cenas de lutas não chegam a ser espetaculares, mas foram muito bem coreografadas pelo próprio Edmilson – que é mestre em taekwondo na vida real. Há golpes com vassouras, rapaduras, e os tradicionais estilos de luta baseados nos animais chineses são substituídos por animais da região, em momentos que realmente fazem rir. A estética dos sonhos de Aluízio é bem interessante, meio que ‘recriando’ uma parte da China e homenageando a aparência granulada dos filmes vhs deste gênero nos anos 80, época onde a história se passa. Há espaço ainda para o diretor incluir um ‘mcguffin’ também (aquele objeto que parece que vai ser importante em determinado momento da trama, mas que acaba enganando o espectador). Mas não pensem que o filme é violento. Segundo palavras do próprio diretor, a intenção foi fazer um filme abrangente para todas as idades, sendo assim, a própria violência do filme é estilizada e amenizada para não impressionar as crianças. Como forma de ressalva, convém dizer que o clímax do filme é estendido além do necessário, tornando a última luta ligeiramente cansativa. Aparentemente, a ideia foi fazer o mesmo que o clássico ‘Rocky’ conseguiu, ou seja, construir toda expectativa em cima do confronto final desenvolvendo pacientemente o treinamento e as subtramas para terminar com uma luta épica, mas não dá para comparar os dois resultados.

Portanto, ‘O Shaolin do Sertão’ é uma grata surpresa do cinema nacional, um filme de bastante personalidade que consegue fazer uma comédia totalmente diferente da qual a população que frequenta nossos cinemas está acostumada. Falta um pouco de conflito para atribuir ainda mais peso ao clímax final (nada mais tenso do que saber que o personagem tem tudo a perder caso fracasse), mas isso não chega necessariamente a comprometer o saldo final. Mesmo correndo o risco de agradar apenas uma parte restrita do público, por conta do humor completamente regional, Halder Gomes acerta na mosca ao dirigir uma trama onde um personagem está primordialmente em busca da felicidade e de uma mudança de vida, e esses desejos são inerentes a qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo. Com personagens carismáticos,trilha sonora que é um show a parte (mesclando os sons do sertão com a tradicional trilha chinesa), excelente timing cômico e uma estética bastante peculiar e interessante, ‘O Shaolin do Sertão’ merece totalmente percorrer os quatro cantos do Brasil e ser visto por todos que querem simplesmente se divertir com uma boa história nacional para variar.

UM MOMENTO APIMENTADO: O encontro de Aluízio e Piolho com Jesus, o fanho, um dos mais engraçados do filme.