SINOPSE

‘Olhos da Justiça’ é o remake de um filme argentino vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, ‘O Segredo dos Seus Olhos’ (2009). O filme surpreendeu ao contar a história de um crime terrível de maneira bastante inventiva, mesclada com um romance mal resolvido e apoiada por atuações magnéticas de seu elenco, especialmente do protagonista Ricardo Darín. O mais interessante no filme, é que ele mostra como o tempo e o amadurecimento nos fazem refletir sobre o passado, e podem alterar completamente nosso futuro.

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Questionar se um filme ainda tão recente na memória merecia uma versão “made in USA” é assunto para uma outra discussão, mas além da questão financeira, um dos motivos para o surgimento de tantos remakes de filmes estrangeiros em Holywood é o fato de que o público norte-americano não é muito simpatizante com os filmes legendados. O próprio Mel Gibson teve “problemas” de aceitação com alguns de seus filmes que preservavam a língua nativa para passar mais credibilidade ao resultado final, casos de “A Paixão de Cristo (2004)” e “Apocalypto (2006)”. Portanto, culturalmente isto meio que “justifica” a adaptação da obra.

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Neste novo filme, intitulado de ‘Olhos da Justiça’, temos um “tripé” de atores principais muito talentosos e ainda coadjuvantes emergentes para assegurar a qualidade das interpretações. Foram feitas algumas mudanças essenciais na história: a investigação, que se passava na década de 70 foi alterada para logo após os atentados do ’11 de setembro’; o crime, que antes havia acontecido com a esposa de um rapaz, passou a acontecer com a filha de um dos detetives que atenderam ao chamado, tornando a trama muito mais pessoal e impactante para o espectador, mas ao mesmo tempo mais delicada e arriscada para o diretor.

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O diretor, inclusive, é também o roteirista do filme. Billy Ray ficou mais conhecido após sua indicação ao Oscar de Melhor Roteiro pelo filme “Capitão Phillips (2013)”, mas já tinha em sua carreira alguns trabalhos interessantes, como “Jogos Vorazes (2012)” e “Intrigas do Estado (2009)”. Aqui Billy foi auxiliado pela presença do diretor do filme original, Juan José Campanella e esta participação conjunta foi positiva, para mudar completamente de época e local, mas mantendo a essência do filme original. ‘Olhos da Justiça’ é um filme que trata de vários temas secundários interessantes, como a obsessão, o jogo de interesse que envolve a política e a polícia e até sobre a famosa (e temida) “friendzone”. Mas o tema principal é o da perda de alguém muito importante, como lidamos com isso e o que esperamos da lei e da justiça nesse sentido.

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O filme tem uma premissa interessante, apesar de podermos questionar se a lógica interna do filme se justifica – seria plausível que alguém ficaria 13 anos vendo fotos de suspeitos, “remoendo” um caso antigo ainda na esperança de desvendá-lo um dia? Caso o espectador abrace esta ideia, naturalmente ele entra no clima do filme e só tem a ganhar a partir deste momento. A forma como a história é contada também se mantém fiel ao filme original, com flashbacks que alternam presente e passado dos personagens.

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Apesar de entramos novamente na “paranoia” pós 11 de setembro – que os próprios norte-americanos parecem não se cansar de “desenterrar” a tragédia a todo momento -, um dos pontos positivos no roteiro de Billy Ray é não glorificar a “Guerra ao Terror” que começou a partir dali. O roteirista prefere mostrar que muitas vezes, o sentimento de culpa e a perda de uma única pessoa podem ser muito mais dolorosos do que uma perda coletiva. Em uma cena bastante ousada, onde Jess (Julia Roberts) descobre que sua filha foi brutalmente assassinada e jogada em uma lixeira, é que o filme consegue transmitir essa sensação ao espectador. Mas a cena só consegue ser tão eficiente graças a magnífica interpretação de Julia, passando toda emoção e desespero através de um “contra-plongée” (quando a câmera mostra de baixo para cima) muito bem escolhido e executado.

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Considerada uma das atrizes mais talentosas da sua geração nos anos 90, é maravilhoso ver Julia novamente hipnotizar o espectador com seu luto, expressando uma mulher completamente despida de felicidade e vaidade, que parece que nunca mais irá sorrir novamente. Ao lado do seu ex-colega Ray (Chiwetel Ejiofor), que retorna para trazer um restinho de esperança a amiga, e Claire (Nicole Kidman), a encarregada que auxiliou Ray na investigação (já que Jess não pôde participar, pela relação parental com a vítima), o trio desempenha de forma excelente seus papéis. Completam o elenco o parceiro de Ray, Bumpy (Dean Norris, de ‘Breaking Bad’) e o seu rival dentro do departamento Reg, (Michael Kelly, de “House of Cards”). Quem procura, portanto, um motivo para assistir ao filme já pode ir se animando, que não é por atuações farsescas ou sem coração que irá se decepcionar.

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Entretanto, um filme não é feito exclusivamente para uma pessoa. Quem realmente for fã do filme original, deve considerar ‘Olhos da Justiça’ uma cópia inferior. O motivo disso é que, como mencionei, a presença de Campanella influenciou para que o filme referenciasse seu predecessor por vários momentos. Cenas “chave”, como a perseguição no estádio – que deixou de ser futebol para se tornar beisebol – e que não conseguiu utilizar o plano-sequência fantástico do filme anterior; o interrogatório do suspeito principal quando os detetives tentam extrair uma confissão do elemento; e até o impacto na parte final do filme são drasticamente reduzidos, simplesmente por não conseguirem expressar a mesma sensação que as cenas originais conseguiram. A caracterização do ano 2002, pareceu um tanto negligenciada e assim como a fotografia, pareceram ‘displicentes’ quanto a diferenciação das épocas. Bom, 13 anos não é muito tempo, mas se formos comparar o quanto o mundo mudou de lá para cá, certamente poderíamos descrever muitas mudanças significativas, coisas que o filme peca em não deixar claras ao espectador.

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Apesar de perder força na emoção e até mesmo no seu significado, devemos considerar ‘Olhos da Justiça’ um filme feito visando um público que não conhecia o material original ou não teria interesse em procurá-lo fora da sua fronteira. E olhando por este lado, o saldo é muito positivo. Confiando na premissa e deixando se envolver pelo clima tenso que é bem construído, temos um suspense sólido, capaz de surpreender, com um diretor que demonstra sua habilidade através de tomadas aéreas e “contra-plongées”, mas que principalmente, só funciona graças ao seu elenco muito bem escolhido. Julia Roberts é o que há de melhor no filme e só sua atuação “vintage” já vale o ingresso.