O cinema costuma sempre trabalhar grandes histórias de grandes acontecimentos. Com isso, surgiram obras como Titanic (1997), O Discurso do Rei (2010), Gladiador (2000) e Coração Valente (1995), por exemplo. Nesta realidade, a Segunda Guerra Mundial serviu como um principal motivador para obras significativas da história do cinema, vide A Lista de Schindler (1993), A Vida É Bela (1997) e A Queda: As Últimas Horas de Hitler (2004), e que também chamaram a atenção da Academia, o que não é nenhuma surpresa.

Historicamente, a maioria dos votantes do Oscar foram judeus. Com isso, havia um apelo não só histórico, como também emocional ao indicar filmes que trabalhavam a temática – só observar que 16 longas com o tema  já levaram a estatueta para casa. O principal chamariz para os olhos serem direcionados para Sobibor está no fato da obra não ter sido a selecionada como a representante da Rússia no Oscar 2019. A dúvida, no entanto, é tirada rapidamente durante a exibição do mesmo.

É inevitável dizer que a heroica história do grupo, liderado pelo tenente Alexander Pechersky, responsável pela fuga do campo que dá nome ao filme, seja descartável. Principalmente pelo fato da ação ter resultado na fuga de 300 prisioneiros, incluindo o próprio tenente. Pela trama, a história do campo – que ficava situado na Polônia e serviu de extermínio de cerca de 250 mil judeus durante seu ano e meio de funcionamento (desativado em outubro de 1943) – é uma clara faísca para produções cinematográficas, tanto que a mesma história chegou a ser adaptada em 1987, no longa Fuga de Sobibor. No entanto, o filme não conseguiu chamar a atenção que o feito heroico merecia.

E, infelizmente, com Sobibor acontece a mesma coisa.

Dirigido e estrelado por Konstantin Khabenskiy, o longa não conquista o público da forma que deveria. A história, por si só, traz seu encanto, porém o cineasta russo não consegue trazer a sensibilidade já apresentada em outras obras do tema. Muito disso se deve ao fato do diretor exagerar nas situações dramáticas, ao forçar estereótipos já muito bem estabelecidos pela própria história, principalmente em relação aos soldados nazistas. Khabenskiy perde constantes minutos para entregar cenas de tortura gratuitas aos personagens, o que se torna desnecessário diante uma situação histórica já muito conhecida e também já muito representada.

Outro problema está no roteiro de Michael Edelstein, principalmente em seu trabalho com os personagens. O roteirista não consegue estabelecer um guia a ser seguido, o que torna sua narrativa bagunçada. Tanto que o longa chegou a ser baseado no livro Alexander Pechersky: Breakthrough to Immortality, que inclui, não só memórias do tenente, como também o poema Luca, de Mark Geylikman – que desencadeou a campanha internacional dedicada à eternização da memória dos heróis. Mas o roteiro escolhe em manter sua visão em diferentes personagens, o que perde o foco principal do objetivo.

A própria introdução do longa já demonstra isso, já que o espectador é apresentado a personagens que, minutos depois são descartados ou que não desencadeiam importantes funções futuramente.

Neste ponto, tornou-se claro que o iniciante cineasta procurou trabalhar a história por um todo. Como explicado na crítica de O Gênio e o Louco, há consequências diante essa escolha. Khabenskiy aderiu mostrar uma parte significativa dos ajudantes no grupo de fuga. Nisso, temos o desperdício de tela com tortura a cada um dos personagens, como se realmente precisasse mostrar uma motivação à fuga. A clara tentativa do russo foi a de transformar Sobibor na obra definitiva do ato, no entanto, faltou a coragem em ser mais pé no chão para concentrar sua câmera em menos situações singulares.

Entretanto, a direção de arte do longa não decepciona. Principalmente o campo, que chegou a ser criado com precisão histórica, a partir de plantas nazistas do local. Houve, inclusive, uma preocupação em trazer objetos históricos para tornar a ambientação ainda mais realista. Mas essas qualidades não foram o suficiente para conquistar o espectador. Muito menos o elenco diverso, que conta com Christopher Lambert (Highlander), Michalina Olszanska (Matilda), Philippe Reinhardt (Stalingrado) e Mariya Kozhevnikova (Platoon).

Tudo isso faz de Sobibor uma obra vazia, apesar de sua tentativa de ser algo grandioso. Por mais que funcione em quesitos técnicos específicos, o principal defeito do longa é o fato de existir referências suficientes que comprovam sua fraqueza. Ao todo, Khabenskiy não se mostrou ser o suficientemente corajoso para entregar uma obra verdadeiramente marcante.