The Walking Dead

No ar desde 2010, a série The Walking Dead se tornou um fenômeno mundial de audiência com uma dimensão bastante inovadora em relação à temática “zumbi”.

Baseada na série de quadrinhos com o mesmo nome, criada por Robert Kirkman, a adaptação para a TV, desenvolvida por Frank Darabont, diretor responsável por grandes sucesso do cinema como Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre, já está em sua 5ª temporada e conquistando, a cada episódio, milhares de novos fãs no mundo todo, sem falar que além dos quadrinhos, a série também está rendendo livros e games sobre a história sofrida de grupos de sobreviventes em torno do chamado “Apocalipse Zumbi”.

Embora todo o alvoroço positivo em torno da história, muitos críticos, fãs e cinéfilos vem questionando a verdadeira razão de todo o sucesso desta produção e qual o efeito que a mesma está causando para as produções cinematográficas de mesmo gênero que estão sendo criadas depois do grande sucesso de The Walking Dead.

Após quatro temporadas e com uma quinta em exibição, The Walking Dead possui aspectos muito presentes em filmes de zumbis tradicionais, como o terror propriamente dito, a ritmo de ação, os efeitos de corpos dilacerados e tudo que um filme do gênero deve possuir. Entretanto, a série tem algo a mais que as demais produções não possui, um fator bem mais dinâmico e complexo e que vem agradando a um público misto, até mesmo para aqueles que não curtem muito filmes de terror. Tal fator pode ser identificado como o impacto psicológico em relação aos personagens e seus conflitos pessoais, uma vez que a história não se trata apenas de uma “batalha” entre humanos Vs zumbis mas também da luta pela sobrevivência de cada personagem, o que atribui um desenvolvimento bastante seletivo em torno do comportamento de cada um dos sobreviventes.
Citando, como exemplos mais impactantes, dois personagens da série: o protagonista Rick Grimes e a sobrevivente Carol Peletier. O primeiro, interpretado pelo inglês Andrew Lincoln, surge como o bom moço da trama, carregado pela fibra de pai e esposo em manter a sua família a salvo, o personagem, com o passar das temporadas, sofreu uma violenta transformação, movida pela traição de pessoas próximas e o instinto paterno em proteger o filho tanto dos mortos quanto dos vivos perigosos. Rick, apesar de ainda ser tido como herói da história, tornou-se um vingador sanguinário e uma ameaça para todos aqueles que põem seu grupo em perigo. Já a segunda, Carol, interpretada por Melissa McBride, sofreu praticamente a mesma mudança de Rick, com um detalhe, passou de uma mulher submissa e amedrontada com o mundo machista, tendo que conviver com a perda de sua filha, até se transformar em uma eximia estrategista e imperdoável assassina.
Diferente do que acontece nos filmes de terror com a temática zumbi, onde nos quais as verdadeiras estrelas são os mortos-vivos, os criadores de The Walking Dead se preocuparam em mostrar ao público o foco na relação entre os indivíduos que, mesmo não sabendo como mundo chegou aonde chegou, tinham que sobreviver a qualquer custo e não importando a mudança que sofreriam nesta luta para se manterem vivos. A sensibilidade, a compaixão, o companheirismo, o amor, bem como o instinto de vingança, a ganância, a perversidade e a busca pelo poder são fatores que contribuem para o merecimento da atenção do público e, consequentemente, para o sucesso da série. Curiosamente e coincidência ou não, os mesmos fatores citados são presenciados em muitos reality shows no mundo, o que vale lembrar que muitos dos fãs da serie The Walking Dead também são fãs de reality show.

Outro ponto, desenvolvido de uma forma majestosa em The Walking Dead é que, diferente da maioria dos filmes sobre zumbis, os produtores não tem nenhum receio em “matar” seus protagonistas, mesmo que isso mude a história desenvolvida nos quadrinhos e mesmo que isso vá contra o argumento e desejo dos fãs. O criador da série, Robert Kirkman, ao ser questionado em entrevista sobre qual dos personagens ele e os demais produtores já pensaram em matar na série, a resposta foi: TODOS! O resultado incrível em razão disso é a imprevisibilidade em torno do enredo, pois o público em geral, nunca consegue adivinhar o fim de cada episódio fazendo com que muitos despertem a curiosidade em acompanhar a serie do inicio ao fim.
Não é preciso refletir sobre o quanto The Walking Dead impactou em relação aos eventuais filmes sobre zumbis que venham a ser produzidos no futuro. É claro que, para quem é fã do gênero como um todo, qualquer produção boa ou ruim é muito bem-vinda. Contudo, para quem é fã de um estilo mais tenebroso e com um enredo inteligente bem melhor desenvolvido e elaborado, dificilmente uma produção cinematográfica poderá superar aquilo que é mostrado em The Walking Dead. Nem mesmo os filmes de George A. Romero, diretor dos grandes clássicos do gênero como A Noite dos Mortos Vivos e Despertar dos Mortos.
Em se tratando especialmente de George A. Romero, muitos fãs de seus filmes acreditam que mesmo com o todo o sucesso, o cineasta cometeu uma grande “burrice” ao atrasar suas produções em torno da temática zumbi, sendo seu ultimo trabalho o interessante Ilha dos Mortos de 2009. A razão disto, é o fato de que os zumbis de Romero tinham algumas particularidades que vinham se desenvolvendo de uma produção para outra, como a capacidade de locomoverem de forma mais rápida, de se comunicarem entre si e o apetite por animais. Muitas destas particularidades já estão sendo vistas em The Walking Dead e muitos fãs do gênero acreditam que nenhuma outra produção de Romero irá convencer o público de que sua técnica é tão boa quanto a dos criadores da série. Contudo, é claro que a legião de fãs deste grande mestre do terror sempre defenderá sua obra e aguardará ansiosamente por outra grande produção do mesmo, independente do sucesso de The Walking Dead.
Assim como aconteceu com a série 24 Horas, muito se fala sobre uma produção cinematográfica exclusivamente sobre The Walking Dead de modo a dar continuidade à trama, bem como se questiona sobre até quando a série continuará com o mesmo sucesso de hoje. Tudo isso, é claro, são cenas dos próximos capítulos.