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Um consenso quase fundamental entre críticos e especialistas, diz que o bom cinema americano essencialmente se impôs na história devido a uma tradição de grandes roteiros. Filmes como 12 Homens e Uma Sentença (1957) só foram possíveis graças ao mais menosprezado dos artistas no corpo da produção cinematográfica, o roteirista. True Detective (2014) é parte da curva histórica no processo de migração deles para a tela dita menor, a televisão. Iniciado com Família Soprano (1999), onde a visionária HBO conseguiu manter sua marca de alta estirpe, a série produzida por Nic Pizzolatto, também escrita por ele, é um ousado filme noir de oito episódios de 1h cada um, onde se distorce a tradição do filme policial de investigação, fazendo o humano ser o alvo da análise, e não o crime em si. O estado da Louisiana, como muitos em partes diversas do mundo, comporta um imaginário isolacionista, cheio de sincretismo religioso e extremismos ideológicos, graças em parte a seu passado escravocrata. Este é o ambiente onde os detetives Cohle (Matthew McConaughey) e Marty (Woody Harrelson) investigam uma série de assassinatos e desaparecimentos de jovens e crianças aparentemente desconexos, mas que escondem um profundo mar tenebroso que forma uma rede de ligações sociais entre seitas religiosas e o aparato do estado.

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Enquanto vemos o desenrolar da trama, conhecemos a personalidade dos personagens centrais, pois Matthew mostra nesta série o gancho de seu resurgimento como grande ator, compondo o complexo agente Cohle, um misto de filósofo atormentado e figura típica de um livro de Edgar Allan Poe. Woody curiosamente foge de seus habituais personagens doidões como em O Povo contra Larry Flynt (1996), ou Assassinos por Natureza (1994) para ser o carismático e mediano policial Matin Eric Hart, casado e pai de duas meninas. O calhamaço de 450 páginas de Pizzolatto pensa a série como um estudo das decisões humanas, e de como o mundo as desumaniza. Técnicamente, o quarto episódio é o mais bem feito, com um plano sequência primoroso em uma cena violenta entre gangues negras e motoqueiros, num desvio da investigação.

Matthew-McConaughey

A narrativa se dá em dois pontos no tempo, entre 1995 e 2014, em um interrogatório dos já separados agentes, desvelando seus conflitos e motivações. Michelle Monaghan é a esposa cansada de Marty, também parte importante do conflito constante de convivência entre os dois. Com um final digno de O Silêncio dos Inocentes (1991) a série se fecha com nossa expectativa de uma nova temporada tão emblemática quanto esta, que estabelece uma distância enorme entre oque se produz hoje no cinema com suas bilheterias e heróis, e oque realmente ocorre de artístico e cerebral na TV. Uma obra-prima.