Cerca de 60 anos atrás, Maurício de Souza lançava suas primeiras tirinhas nos jornais, protagonizadas por um menino chamado Franjinha e seu cachorro Bidu. Não demorou muito para tais personagens serem transformados em coadjuvantes do que hoje conhecemos como a “A Turma da Mônica”. O que começou com tirinhas nos jornais, transformou-se em desenhos animados, filmes para o cinema, produtos licenciados e até videogames. O primeiro filme da Turma da Mônica foi lançado em 1982 e levou mais de um milhão de brasileiros aos cinemas (o recorde da turminha, que esperamos que seja quebrado). E agora, a Turma da Mônica será apresentada como nunca antes: um longa-metragem “live-action”. Segundo o Maurício, foram anos de propostas para tal filme, mas para ele nunca pareceu correto e seu principal receio era encontrar crianças que fossem perfeitas para o papel (de fato, foi melhor esperar, pois se este elenco mirim não é perfeito, está muito perto de ser). Ele foi convencido e agora chega aos cinemas “Turma da Mônica: Laços”, um dos melhores filmes brasileiros já produzidos.

Mais do que estabelecido no mercado das histórias em quadrinhos, era de se esperar que as produções das histórias não estivessem exclusivamente nas mãos do criador, e “Laços” surge justamente de uma publicação assinada por autores distintos, os irmãos Victor e Lu Caffagi. Talvez para um estrangeiro que fosse começar a pesquisar sobre o filme, este fato seria muito curioso: “Por que raios não foi o próprio criador a escrever a história da primeira adaptação live-action?”. Mas para nós, brasileiros, é muito simples entender em como a Turma da Mônica está tão presente no cotidiano de todos, como um verdadeiro patrimônio cultural de nosso país. É impossível encontrar um brasileiro que não conheça os personagens e as suas características, a Mônica e sua turma estão verdadeiramente enraizadas em nossa cultura. E a história dos irmãos Caffagi consegue resgatar com excelência a essência das histórias do Maurício, de modo que é imperceptível a mudança de autores.

Com uma trama muito simples (e ao mesmo tempo muito rica) nas mãos, o diretor Daniel Rezende se preocupa em estabelecer os laços entre os personagens e entregar um filme que transmita a inocência da infância e algo fundamental para o cinema hoje: valores. Toda a riqueza de “Turma da Mônica: Laços” está estabelecida nos valores, os quais guiam uma trama que transparece a importância das amizades, da confiança, das superações e da ética. Hoje é muito difícil encontrar produções que não tenham escrito em seus alertas de letras minúsculas “Contém: Desvirtuamento de valores éticos”, e quando não há avisos, observa-se a falta de responsabilidade em apresentar conteúdos duvidosos para os pequenos (fica aí o recado para Disney valorizando o consumo e o egoísmo com Toy Story 4).

Outro grande trunfo do filme é o elenco mirim: Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo e Gabriel Moreira interpretam Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, respectivamente. Dados os 60 anos que tivemos para nos acostumar com os traços do senhor Maurício, e tantos outros para adaptarmos os ouvidos as dublagens características do desenho, imagina-se que o estranhamento em uma adaptação “live action” venha a acontecer. Porém, se o estranhamento acontece, ele não dura mais do que poucos segundos e sintonia dos jovens atores explode nas telas com uma doçura e um carisma inacreditável. Kevin, que tem a difícil missão de trocar todos os Rs por Ls em todas as falas, talvez seja o maior destaque entre as crianças, com uma facilidade incrível de expressar apenas com o olhar as mais diversas emoções, de forma melhor que muitos atores mais velhos por aí. Ele ainda teve a oportunidade de atuar ao lado de Rodrigo Santoro, que em sua pequena participação rouba a cena de um jeito inesperado em uma sequência montada com maestria, que curiosamente não está no material em quadrinhos original.

O último trunfo do filme é a fotografia. Filmado no interior do estado de São Paulo, o visual consegue ser tão agradável quanto o conteúdo, e as paisagens simples do cotidiano paulista enchem cenas deslumbrantes, com a iluminação sempre perfeita e ângulos que valorizam não só as cidades de locação, mas a produção como um todo, transparecendo a seriedade com a qual o filme foi produzido.

“Turma da Mônica: Laços” vem para quebrar o estigma que o cinema nacional traz somente violência e pornografia, e alcança um nível que poucos filmes conseguiram atingir. Espera-se que tudo isso seja preservado na sequência já anunciada, e o filme tenha o sucesso e atenção merecida.