SINOPSE

‘Vingadores 2 – Era de Ultron’, que estreia dia 23 em solo brazuca, é duplamente superior a sua fonte primária (Vingadores/2012). Por quê? Apesar da primeira produção ter arrecadado na casa do bilhão de dólares, faltou-lhe caráter próprio. Tanto na condução dos personagens em suas individualidades, como em um roteiro mais coeso e bem acabado. Aí você pode dizer: “Ah, qualé? Só queríamos ver os heróis reunidos em cenas extraordinárias.” Talvez; mas na visão de Stan Lee, a Marvel Studios, agora coligada à Disney, pensa em usar as mesmas ferramentas de endomarketing dos quadrinhos, interligando personagens e sagas gigantescas para manter o interesse de seus novos “leitores”, mas para isto é necessário dar um salto de evolução. Reaquece-se assim a concorrência deste universo que hoje é a mola motora do caixa em Hollywood, especialmente por sua rival histórica DC Comics, que atrelada a Warner optou em produzir seus mais sérios, trágicos e profundos personagens (Batman, Superman, Watchmen e Constantine), dialogando assim com um público mais diversificado e maduro. O que Joss Whedon, criador da clássica série ‘Buffy- A Caça-vampiros’ fez, foi justamente dar este salto.

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O filme, que é o décimo primeiro do estúdio, e marca a terceira fase de sua criação, é cinema de entretenimento de verdade. Em seu prólogo temos os Vingadores em uma emblemática cena cheia de ação e conteúdo invadindo uma base da Hidra, onde encontram um bastão usado de experimento de controle, pois tem uma Gema do Infinito, uma peça de poder do universo, e um cérebro de Inteligência Artificial em seu núcleo. Claramente o foco está de cara em Tony Stark que vê nisto seu sonho de criar um sistema operacional de pacificação armamentista de nome Ultron. Assim temos uma discussão ética como centro, redistribuída em não menos interessantes subtramas no transcorrer das quase 3hs de projeção, entre um romance da Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Hulk (Mark Ruffalo), que aqui mostra camadas de humanidade ao drama do gigante verde e sua inabilidade de controlar a fera. Um diálogo entre os dois é seu melhor momento dramático, quase se assemelhando a um filme independente, minimalista e verdadeiro.

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Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), Capitão América (Chris Evans), Thor (Hemsworth), todos são afetados em suas instabilidades e inadequações a um mundo despreparado e com medo de seus poderes, e a fonte encontrada no roteiro para gerar este cenário é a telepata Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e seu gêmeo Mercúrio (Aaron Johnson), ambos cobaias mutantes da Hidra que nutrem um ódio primordial por Tony Stark e o que ele representa, a “pax-americana”.

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Os U$ 250.000.000,00 de orçamento bancam uma opulenta batalha usada de maneira correta, sem destruições exibicionistas e desnecessárias, e sim como parte da narrativa, assim como seus efeitos visuais ornados pela cinematografia de Ben Davis, que no conflito final imprime uma colagem de página de ilustração em câmera lenta, lembrando a época de ouro Kirby/Lee, com diversos seres fantásticos em uma mesma cena. Sem entregar demais, fica o mérito da escolha acertadíssima do personagem surpresa dado a Paul Bettany, ator de tom shakespeariano que será a chave da conclusão, e o passaporte para a segunda geração da equipe.

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Ultron (James Spader, ótimo) é parte do lado obscuro da consciência de Stark e sua visão pessimista da humanidade, por isso mesmo, parte de sua culpa, que o persegue durante os conflitos. Já em forma robótica, enxerga nos homens uma inferioridade perigosa que deve ser superada, por isso mesmo falei em evolução. O filme dialoga aqui consigo mesmo e suas questões. Não é a literatura de Will Eisner, mas sim a alma da Marvel mantendo-se relevante ao fan-boy mais ávido. Não temos aqui um filme tapa-buracos do primeiro, mas algo com vida própria e vontade por parte do elenco que aqui alcança uma química perfeita de tom família. Ex: Em uma festa no edifício Stark, todos brincam após alguns drinques, com a idEia de quem é digno de levantar o Mjolnir, o poderoso martelo de Thor. Todas as piadas são milimétricas e precisas, trabalhando na interação dos super-seres. Claro que evidentemente existe uma “barriga”, que 15 ou 20 minutos a menos resolveriam, mas que é compensada pela auto-análise que se faz da presença dos super-heróis na terra e leves discussões filosóficas sobre nossa auto-destruição inata. Espero que o público entenda e supere o primeiro em bilheteria, pois este merece. Como sempre fica a dica de esperar até os créditos finais. Comprem a maior pipoca possível.