Os leitores acreditam que o principal papel do crítico é falar mal. Obviamente que o termo “crítica” corrobora para esse pensamento. Mas, para ser sincero, odiamos falar mal. Afinal, sentimos que nosso tempo foi jogado fora ao gastarmos horas assistindo a um filme ruim. Há muitos momentos em que isso não acontece, que saímos ou em dúvida ou felizes pela obra que assistimos. Agora, com “Mentes Sombrias”, a realidade é oposta e tem tudo aquilo que o crítico mais odeia. Para ser sincero, chega a ser um pouco gratificante falar mal e soltar toda a raiva que sentimos durante as duas horas sentados na poltrona, mas odiamos ter que fazer isso. Neste momento, essa nova adaptação literária está me fazendo agir assim. Não acredito naquilo que muitos críticos defendem de “não veja essa coisa horrível”. Acredito que gosto é relativo e todos devem assistir tudo, até o pior filme. Mas, apesar de existir uma relatividade no gosto, não existe quando o assunto é técnica. E “Mentes Sombrias” falha em todos os quesitos. Sem exagero.

 Com notas medianas em sites literários, a obra da americana Alexandra Bracken traz pequenos momentos de originalidade, tanto que por se basear em milhares de obras iguais, com pontos diferentes, faz sua força ser mínima. Com o filme, é a mesma coisa. As referências de histórias pós-apocalípticas e crianças poderosas são nítidas, indo de “Harry Potter” (2001-2011) a “A Quinta Onda” (2016). Mas nada é bem aproveitado. O roteiro de Chad Hodge não tem vergonha em trabalhar com as situações e justificativas mais clichês da história do cinema, construindo uma sociedade fraca, com heróis fracos e vilões ainda mais fracos. Tudo se torna previsível, chegando a momentos em que o próprio filme se contradiz. Em certas situações, o personagem diz algo, mas logo em seguida não ocorre na maneira dita, sem justificativa nenhuma. A sociedade é até bem pensada, mas nada tão diferente de “Jogos Vorazes” (2012) ou “Divergente” (2014). Os personagens são tudo aquilo que o cinema já mostrou diversas vezes e está longe de conversar diretamente com o jovem, o principal público alvo. No fim, o filme se demonstrou querer atingir apenas os fãs dos livros, e olha, não aguardo boas opiniões dos leitores.

 Mas, ainda que o texto fosse ruim, poderia haver alguma salvação. Mas Jennifer Yuh Nelson decidiu seguir a risco o roteiro e trazer uma direção medíocre. Tudo é mal estabelecido. A câmera da sul coreana é péssima, utilizando recursos padrões de fotografia e takes clichês. Nada é diferente e inovador. O que difere de sua filmografia, já quem em “Kung Fu Panda 2” (2011) e “Kung Fu Panda 3” (2016) ela demonstrou uma criatividade significativa. Tudo bem que a animação ajuda a explorar melhor, mas aqui, ela se mantém estável, sem renovar absolutamente nada. E sendo esse seu primeiro longa live action, a diretora demonstrou não ter controle sobre seus atores. Todos são mal explorados e mal dirigidos, mas há um consenso. Além da mão da diretora não ser boa, ninguém do elenco mostra qualquer vontade de querer atuar bem. Nem um nome de peso faria a diferença em todo o estrago. Até o trabalho de Mandy Moore(“This Is Us”) e Gwendoline Christie (“Game Of Thrones”) poderiam ter algum destaque, mas as duas trabalham com personagens péssimas, construídas de maneira fajuta e entregam uma atuação pífia perto da carreira das duas. Mas o problema maior consegue ser com Gwendoline, que conseguiu viver um papel tão mal construído quanto a Capitã Phasma em “Star Wars”. Tudo é muito triste.

Nem a ambientação, que poderia ter seu destaque, salva. Jennifer constrói o comum em um mundo pós-apocalíptico e explora muito do que já havia sido usado no péssimo “A Quinta Onda”, inclusive a construção do romance e das viradas, ambos desagradáveis. São 01h44min de pura tristeza. Nada se salva por completo. Os efeitos especiais, que poderiam trazer algo válido – como o que aconteceu em “Maze Runner” (2014-2018) – é ruim – sendo esse o maior elogio possível ao filme – e faz todo o ambiente, já insatisfatório, ser pior ainda. E dentro de toda a ambientação e construção de realidade, o roteiro volta a se destacar negativamente.

O pior não são os personagens mal estabelecidos ou as contradições, mas sim, os diálogos. Hodge esqueceu que estava trabalhando com crianças/adolescentes e construiu conversas dignas de “Malhação”, com ensinamentos ditos de forma robótica e pleonásticas. Houve um esquecimento sobre o audiovisual, e que, se o filme está mostrando algo, não precisa ser mais dito. Mas Hodge sentiu prazer em ser redundante e repetir várias vezes a mesma coisa ou dizer algo que acabou de ser mostrado. Quanto aos ensinamentos, esqueceu que o que Bracken fez, “X-Men” já havia feito há anos nos quadrinhos e com uma metáfora muito melhor trabalhada. Aliás, os mutantes se demonstraram outra fonte de inspiração claríssima, quanto a sociedade, as diferenças e os poderes, tudo é parecido. Para se obter o nível, há muitos pontos iguais a “X-Men: O Confronto Final” (2006). Bem, acho que isso já diz muito.

A inconsistência da história entregue em “Mentes Sombrias” é triste. Principalmente pelo simples não ter sido trabalhado. Apesar de tudo, há sim um potencial na história, mas que foi destruído com uma direção fraca, efeitos medíocres e um roteiro desprezível. O resto é resto. Não há salvação quanto aos personagens, que são dispensáveis. Não há encanto, e a mensagem que deveriam passar fica em terceiro plano, sem qualquer força. Houve uma tentativa de enfim termos uma protagonista jovem e negra em uma franquia de sucesso, mas foi totalmente frustrada. Fox demonstrou seu medo iminente com a compra da Disney e demonstrou uma clara tentativa de alçar seus próprios heróis, mas o resultado foi decepcionante. Como crítico, fico aliviado em soltar essas palavras, mas triste por ver que, em pleno 2018, um estúdio grande, com obras primorosas, consegue fazer um filme tão errado quanto “Mentes Sombrias”.

Não pedimos obras primas de todos, mas o básico feito com competência é o mínimo esperado. E não se sinta convidativo por ver que a produção é a mesma de “Stranger Things” (2016-) e “A Chegada” (2016), pois não há nada da aventura adolescente da série da Netflix e não chegou perto da ficção científica de Denis Villeneuve. Inesperadamente, “15h17 – Trem Para Paris” (2018) ganhou um bom concorrente este ano.