Em agosto do ano passado, o cinema recebia uma adaptação um tanto estranha de um artigo publicado no Wall Street Journal: o filme Te Peguei. Agora, em fevereiro de 2019, a vez foi de um artigo do The New York Times, porém com uma história tão interessante quanto a do longa anteriormente citado. A Mula, no caso, não transporta diversão ou espírito de amizade. O novo filme do renomado e experiente Clint Eastwood retrata a vida de Earl Stone – interpretado pelo próprio Eastwood – que de honrado veterano de guerra e floriculturista, torna-se, aos 90 anos, o transportador de drogas de um poderoso cartel mexicano.

Nessa premissa, Eastwood já nos mostra claramente a má índole de seu personagem, porém, mesmo com todas suas atitudes intolerantes e maléficas, o longa finaliza com um tom positivo. No entanto, o veterano cineasta transporta isso dentro de uma narrativa honesta.

Diferente de 15h17 – Trem Para Paris (2018), a intenção em A Mula é muito mais simples: tratar do período de trabalho do velho senhor Stone até o dia no qual foi preso por portar próximo de três milhões de dólares em cocaína no seu carro. Nada a mais. Não há complexidade na proposta narrativa adaptada por Nick Schenk – retornando ao lado do cineasta depois de Gran Torino (2008). E Eastwood transporta isso muito bem em tela, por isso sua definição como honesto.

Sua direção não tenta tomar rumos extravagantes ou propostas fora do normal. O que realmente chama a atenção no resultado final é o tratamento feito pelo cineasta com seu personagem, algo parecido com o que ocorreu em Sniper Americano (2014).

Aqui. Earl Stone é, do começo ao fim, tratado como um imprestável. Além de ter abandonado a família por prevalecer o trabalho, é a estereotipa representação do velho americano sulista, recheado de comentários racistas, homofóbicos e xenofóbicos. Não só isso, como sua atitude em se tornar um mula e transportar centenas de quilos de cocaína pelos Estados Unidos.

Em obras assim, como Breaking Bad (2008-2013), por exemplo, há uma construção de compreensão das atitudes do personagem e com isso, faz o espectador se relacionar com o mesmo e até defendê-lo. Na obra de Vince Gilligan, o personagem conclui sua trajetória tomando consciência de suas atitudes e se assumindo errado. Na própria construção da série, o ambiente em volta do personagem de Bryan Cranston toma atitudes que fazem jus as suas escolhas. Todavia, isso não ocorre claramente em A Mula, o que deixa dúvidas sobre a proposta de Eastwood e Schenk.

Não há claridade nas ideias do roteiro sobre o filme ser uma romantização do personagem ou uma sátira de atitudes preconceituosas de um Estados Unidos ainda existente. Isso porque em momentos em que o personagem de Eastwood solta frases racistas ou xenofóbicas, tudo é tratado com humor e com certa leveza. Até aí poderia haver a sátira, porém, a conclusão do longa o redime, de certa forma. O diretor trabalha momentos de emoção com o personagem, colocando o espectador em momentos de dó para com um ser humano que até então tomava atitudes vergonhas e maléficas. A “passada de pano” coloca em conflito a narrativa de Eastwood, ainda que a história conclua honestamente com seu começo, meio e fim claramente estabelecidos.

Não só há esse conflito, como também Schenk insiste em fazer críticas sobre o vício da nova geração com a tecnologia. O que novamente gera dúvidas sobre sua proposta. Não fica claro se há a intenção de usar o personagem de Eastwood como um velho que não aceita as mudanças da modernidade ou se Schenk quer realmente criticar o uso do celular para tudo. Essa dúvida acontece principalmente quando o personagem de Bradley Cooper toma a mesma atitude durante a narrativa. E o roteirista faz essa crítica da pior forma possível, que além de realiza-la a cada dez minutos, elas são expostas de forma fraca, a partir de frases prontas e clássicas interpretadas das formas mais debilitadas possíveis.

Ainda que haja o conflito sobre as propostas do longa, tudo é apresentado dentro de uma estrutura coesa e crua. As justificativas para as atitudes do personagem, tanto de Stone, quanto do lado dos policiais e dos traficantes, são bem construídas. Inclusive, os próprios núcleos são bem trabalhados. Eastwood foi feliz em conseguir um bom equilíbrio entre cada um dos cenários, deixando o tempo necessário para um desenvolvimento natural das situações e consegue manter seu controle narrativo muito bem estabelecido durante todo o longa, mesmo com a história ganhando um tom mais cômico durante uma sequência de eventos. Outra vantagem da história de A Mula caminhar bem está em seu elenco.

Além de Eastwood – que mesmo com 88 anos de idade consegue dirigir e atuar muito melhor que muito ator jovem – o longa conta com outros grandes nomes que estão tão bem quanto o veterano ator. Cooper retorna a trabalhar com Eastwood depois do longa de 2014 e entrega seu papel com honestidade.

Na verdade, todo o elenco entrega um resultado honesto diante seus personagens. Laurence Fishburne e Michael Peña, ao estarem no mesmo núcleo de Cooper, oferecem uma dinâmica positiva e funcional com a narrativa, conseguindo realizar bem o trabalho nos momentos de humor e das críticas propostas pelo roteiro. Andy Garcia, como líder do cartel também é outro que se esforça com seu personagem e constrói uma relação moderada com o elenco dentro do núcleo mexicano. O ponto negativo da atuação está principalmente no núcleo familiar do personagem de Eastwood.

Taissa Farmiga, Alison Eastwood – sim, filha de Clint – e Dianne Wiest não chamam a atenção com suas personagens e entregam interpretações medianas, principalmente Dianne. Marcada por Footloose – Ritmo Louco (1984) e Edward Mãos de Tesoura (1990), a veterana atriz não consegue trazer a emoção necessária à personagem e fica em uma mesmice de reações, além de forçar uma estridente voz que incomoda o espectador a cada fala.

Nisso, Clint Eastwood volta a chamar a atenção nos cinemas. Infelizmente, o cineasta ficou longe de trazer o mesmo resultado de Menina de Ouro (2004) ou Gran Torino, mas ainda assim, entrega uma obra consistente dentro da proposta. Mesmo com seus conflitos, A Mula é mais um filme honesto de um diretor, que, com 88 anos, mostra o quanto podemos aprender a amadurecer cinematograficamente e aprender com os erros.