Com a difícil missão de se tornar o primeiro longa de terror a se destacar em 2019 – ainda mais com a estreia de Nós chegando – Maligno adotou uma estratégia arriscada. Ao se aproveitar de uma estrutura narrativa padrão, com trama descomplicada e reviravoltas simples, o longa poderia ter focado na técnica e explorar uma direção mais solta e que se aproveitasse da sua ambientação – como aconteceu com Invocação do Mal (2013), por exemplo – ou simplesmente desencantar.

Pelo clima do texto até agora e pelo título negativo, fica claro que o resultado de Maligno está bem mais próximo da segunda realidade.

Vindo de uma filmografia toda marcada pelo terror, essa é a primeira grande produção de Nicholas McCarthy, o que até poderia justificar todo o amadorismo do longa. No entanto, sua direção se sustenta e é honesta com toda a premissa desenvolvida por Jeff Buhler. Toda a sua ambientação é bem explorada, mas sempre mantida em segurança, o que limita os riscos do cineasta. Portanto, o resultado só poderia ser algo simplório e muito mais próximo de outras obras do que algo simplesmente original, recheado com sustos gratuitos e um uso exagerado da trilha sonora para construir clima.

Além de se manter no óbvio, para não perder o controle da obra, McCarthy mantém seu elenco na mesmice. O jovem Jackson Robert Scott justificou sua escalação depois da madura – mas curta – participação em It – A Coisa (2017), e aqui, chega a controlar seu personagem de maneira sincera. Suas mudanças de tom e humor são bem controladas e conseguem convencer, apesar de ter uma repetição visual muito grande. Há todo o momento seu personagem age da mesma maneira, mantendo um maneirismo incômodo. O mesmo ocorre com Taylor Schilling. Apesar da americana conseguir se desvencilhar bem da sua personagem cômica em Orange Is The New Black (2013 -), ela é obrigada a repetir expressões constantes, mantendo-se na mesmice de outras interpretações de mães assustadas e desesperadas.

Ao todo, o principal destaque do longa é o texto e a narrativa de Buhler. Tanto no sentido negativo quanto positivo da análise. Como introduzido, a história de Maligno não entrega algo nada original, ainda mais em um cenário cinematográfico do terror muito pautado em demônios e encarnações, algo bastante presente na narrativa de Invocação do Mal 2 (2016), por exemplo. Mesmo com a escolha de Buhler transformar sua história em algo mais mundano, sem se aproveitar de uma criatura sobrenatural, não há muita coragem em seu texto.

Toda a construção dos personagens, das cenas, das revelações, do estudo, absolutamente tudo é muito parecido com dezenas de outras obras do gênero, o que desencanta quem espera ver algo diferente, como foi Corra (2017) ou Hereditário (2018). A ideia de estabelecer o mal mais real de um serial killer e que sua maldade é transportada sem nunca “morrer” inicialmente se demonstra corajosa, pela visão mais niilista da humanidade. No entanto, seu texto não foge de clássicas conclusões do gênero.

O roteiro ainda peca na construção da história. Buhler enche o filme com ações sem justificativas, tornando sua narrativa falha e preguiçosa, recheada com introduções gratuitas e que não criam sentido para o caminhar narrativo. O desencanto com a proposta de Maligno é constante, não só pelo o que o filme é por si só, mas também pelo o que poderia ter se tornado. O longa demonstrou uma oportunidade de amadurecimento, com um final mais poderoso e chocante. Todavia, fica claro o quanto a produção não procurou riscos e se manteve dentro do esperado.

Nisso, a escolha de Buhler trouxe as consequências esperadas para Maligno. O longa de McCarthy facilmente supera outras obras do gênero do ano, como O Manicômio e A Maldição da Freira, mas se manteve distante de ter qualquer destaque até o final do ano, podendo ser facilmente esquecido já na próxima semana.